PEDAGOGIA DO AMOR
A contribuio das histrias universais para a formao de valores das novas geraes


Gabriel Chalita

Editora Rosely M. Boschini
Assistente editorial Rosngela Barbosa
Produo
Tiago Cintra Silva
Assistente de produo Isabela Helou D. Andrade
Design e diagramao
Marcelo Souza Almeida
Capa e ilustraes
Roger Bassetto
Preparao
Elvira Gago
Reviso
Maria Alayde Carvalho Mrcia Melo
Impresso e acabamento
Paulus Grfica
Copyright (c) 2003 Gabriel Chalita
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Chalita, Gabriel
Pedagogia do amor: .1 contribuio das histrias universais para a formao de valores das novas geraes / Gabriel Chalita - So Paulo : Editora Gente, 2003.
ISB   85-7312-4C:
1. Educao - Finalidades t objetivos 2. Pedagoc'..--Direo 4. Valores (tica) I. Ttuio. II. Ttulo: A contn rias universais para a formao 'ias n^vac geraes.
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'Tem anjos voando neste lugar..." Iluminando, conduzindo, acolhendo!
Aos meus queridos amigos-irmos Dom Fernando
Figueiredo e padre Marcelo Rossi, que, com
profundidade e singeleza, apresentam um Deus menos
carrancudo e mais amoroso.
I

SUMRIO
Era uma vez...                                                           9
Sherazade e o valor do amor                                    17
Damon e Ptias e o valor da amizade                       33
Dom Quixote e o valor do idealismo                       49
Davi e Golias e o valor da coragem                         71
Vidas secas e o valor da esperana                           85
Hrcules e o valor do trabalho                               103
Cinderela e o valor da humildade                          121
O rei Salomo e o valor da sabedoria                     139
O patinho feio e o valor do respeito                       159
Estrela de jias e o valor da solidariedade              179 Post-scriptutn: A pera, o maestro e os msicos     197
Referncias bibliogrficas das histrias                  203
Notas                                                                   205
Bibliografia                                                           206

ERA UMA VEZ...
...um sonho... O sonho de manter acesa a chama vibrante, intensa e colorida da infncia. Um tempo marcado pelo encantamento da atmosfera onrica que rege a primeira 
e mais importante fase de nossas vidas. Uma poca singular, rica, pessoal e intransfervel. Perodo que representa uma galxia em meio a todos os outros milhes 
de sistemas estelares produzidos pela frtil imaginao infantil. Imaginao livre de preconceitos, de negativismos e de limitaes. A pureza, a ousadia e o esprito 
quase selvagem dos primeiros anos nos marcam de forma indelvel por toda a existncia...  como se esse perodo fosse comandado pelo ritmo de um relgio cujos ponteiros 
marcam s diverso e alegria... Um tempo cujo cheiro, gosto, cor e som continuamos perseguindo, de forma consciente ou inconsciente, por toda a vida.

10    I PEDAGOGIA DO AMOR
Muito dessa beleza e dessas qualidades da infncia  adquirido e aprimorado por meio das histrias que, quando crianas, ouvimos de nossos familiares - pais, mes, 
avs, avs, tios e tias - e professores. Histrias que tambm chegam por leituras, filmes, desenhos animados, peas de teatro. Sem o passaporte mgico dessas narrativas, 
 difcil conceber viagens, aventuras, conquistas, temores, medos e receios imaginrios fundamentais ao nosso desenvolvimento intelectual e emocional. As histrias 
nos permitem conhecer e criar mundos fantsticos, repletos dos seres mais extraordinrios e das sensaes mais diversas... Sem elas, a infncia, a adolescncia, 
a juventude e a maturidade estariam condenadas a ocupar um palco sombrio, triste, desprovido de atores verdadeiramente apaixonados. ;
Por meio da anlise de dez histrias especiais - escolhidas pela relevncia de seus ensinamentos -, esta obra pretende contribuir para que possamos resgatar em todos 
ns e, em seqncia, em nossos filhos, alunos e todos os demais aprendizes que cruzem nossos caminhos a amoro-sidade, a ternura e a pureza predominantes na criana 
existente em cada um de ns. Uma criana que, com o passar dos anos - e todas as novas exigncias que vm no seu encalo -, vai se tornando um tanto quanto sonolenta, 
tmida, reclusa e esquecida dos valores nobres que do a ela a dignidade e a fidelidade aos seus princpios mais bsicos: ser feliz e fazer o outro feliz. E, mesmo 
que no

 j
FRA UMA vrz...\     11
tenha conscincia disso, a criana exerce, propaga e, dia a dia, revitaliza esses princpios com seu nimo radiante.
Mais do que nunca,  preciso dar um novo sentido a esses pequenos seres iluminados que ocupam almas e coraes... Crianas interiores que habitam castelos, vales 
e montanhas edificados quando ainda arquitetvamos sonhos... Meninos e meninas comprometidos apenas em bater a meta diria da felicidade.
Lembremos que estamos vivendo os primeiros anos de um novo milnio, um tempo propcio para recomeos, novas tentativas e escolhas.  chegada a hora de assumir o 
comando dessa embarcao em direo ao futuro. No podemos esperar que as novas geraes modifiquem o que est errado se no despertarmos para o fato de que cabe 
a ns, desde j, dar o exemplo. Para isso, nossos pensamentos e aes devem ser um misto de altrusmo, capacidade de doao e amor ao prximo.
Mas como faremos se os valores que deveriam nortear a vida em sociedade parecem cada vez mais esquecidos? Como educar nossas crianas e jovens num tempo em que a 
aparncia vale mais do que a essncia e a competio e o individualismo teimam em ditar as regras dos relacionamentos, acabando por minar qualquer possibilidade 
de companheirismo, de amizade e de amor?
Acreditamos que as dificuldades, os conflitos, as guerras e a intolerncia que gradativamente se apoderam do mundo so resultado dessa total inverso de valores 
que

12      PEDAGOGIA DO AMOR
predomina nas sociedades - configurando um tempo em que at mesmo a esperana parece estar mais escassa. Cabe a ns estar conscientes da importncia de nosso papel 
e amparar, reerguer, reavivar os sentimentos, valores e atitudes que podero renovar a confiana em dias melhores.
Vrias so as formas de reconduzir o barco da Histria na direo mais eficaz do sucesso da aventura humana. Uma delas  lanando um olhar mais atento s grandes 
histrias, de modo a apreender seus ensinamentos com maior competncia.
Neste livro, a proposta  justamente apontar caminhos que tornem essa viagem mais segura, fazendo das histrias um elo permanente e inquebrantvel entre a razo 
e a emoo, determinando o equilbrio necessrio s realizaes da vida. Afinal, quem no deseja manter no corao e na mente o enredo mgico das histrias encantadas?
De modo geral, as obras de arte tm como uma de suas peculiaridades a capacidade de romper a barreira do tempo e do espao, preservando uma impressionante atualidade. 
Os grandes clssicos da literatura, por exemplo, recebem essa denominao por retratar em suas narrativas as grandes questes universais com a habilidade, o talento 
e a sensibilidade de seus autores. Artfices da palavra, eles nos deixaram, nas fascinantes histrias que escreveram, belssimas lies de vida. Textos que nos ensinam, 
a cada leitura, algo novo e essencial ao nosso crescimento e amadurecimento.

13
Com maestria, escritores e escritoras constrem tramas e personagens abordando temas que, desde sempre, despertam o interesse, a curiosidade e as emoes mais diversas 
no homem. Conflitos familiares e amorosos e dramas psicolgicos variados expem as dores, as alegrias, os medos, os anseios, os desejos e as expectativas do ser 
humano. Emoes vivamente descritas com a genialidade e a perspiccia desses especialistas em observar os mistrios da alma.
Com o auxlio indispensvel desses textos, desejamos resgatar aqui alguns dos valores presentes nas obras, salientando a importncia de repass-los a crianas e 
jovens com quem convivemos em casa ou na escola. Ler essas histrias, atentar para seus ensinamentos e explor-los da melhor forma possvel com as novas geraes 
 contribuir para a construo de um novo tempo, mais justo e fraterno.
Daremos incio  nossa aventura lembrando os valores e as qualidades de uma personagem feminina fundamental para a existncia de um clssico que se tornou divisor 
de guas na literatura universal, As mil e uma noites, maravilhosa reunio de histrias orientais de autoria desconhecida. Destacaremos a criatividade e a intensa 
capacidade de doao da talentosa e sedutora Sherazade - misto de mulher e mito que povoa a imaginao de todos os ouvintes e leitores que j transitaram pelas veredas 
encantadas dessas noites inesquecveis...

!
14     PEDAGOGIA DO AMOR
.. *. .
Noites que, no dizer do escritor argentino Jorge Luis Borges, foram cruciais para fortalecer ainda mais seu amor pela palavra, pela escrita, pela literatura.
 nosso desejo tambm espalhar sementes que germinem nas terras repletas de magia dos contos de fadas. Para isso, abordaremos os valores presentes em duas histrias 
maravilhosas que trazem em seu cerne os conceitos indispensveis do respeito e da humildade: O patinho feio e Cinderela, textos magistrais cujos frutos so o alimento 
perfeito para leitores de todas as idades.
Temos a inteno de multiplicar - com todo o respeito e considerao que nutrimos pelo mais famoso dos cavaleiros andantes - os nobres ideais quixotescos to escassos 
nos dias de hoje, mas absolutamente necessrios aos novos horizontes /jo amanh. Horizontes que dependem do idealismo contagiante dos visionrios, dos apaixonados, 
dos pensadores que vislumbram, projetam e executam as grandes transformaes.
Como no poderia deixar de ser, o roteiro que traamos neste passeio pelos valores e pelas histrias prev, ainda, uma incurso obrigatria pelos textos das Sagradas 
Escrituras. At porque a Bblia - livro to belo quanto fundamental para a compreenso da natureza humana - rene narrativas de natureza pica, lrica e dramtica. 
Da termos escolhido discorrer sobre os textos de Davi e Golias e do rei Salomo, destacando, respectivamente, suas lies de coragem e sabedoria.

15
I
Outra atrao imperdvel para viajantes que pretendam cruzar fronteiras em busca de belas histrias  a Grcia, bero da civilizao ocidental que deu origem a algumas 
das mais fascinantes lendas e narrativas de todos os tempos. A histria de Damon e Ptias - uma belssima lio sobre a amizade - e a de Hrcules - sobre a importncia 
do trabalho - foram as escolhidas para tornar nossa jornada ainda mais especial.
Desejamos, finalmente, que o encanto dessas narrativas possa tocar a criana mais pura e ancestral de todos os leitores, despertando-a e fazendo com que permanea 
acordada para sempre. Uma criana cuja energia transborde o suficiente para que possa encher os coraes de festa...
 nosso objetivo que este livro seja til para pais, mes, professores e todas as pessoas comprometidas com o ato gratificante de formar, informar, transmitir saberes, 
lies e, principalmente, afeto - esse signo que deveria reger todos os relacionamentos, todas as aes, todos os vnculos. Afeto por se saber parte de algo maior. 
Afeto por se saber centelha divina e partcula de amor no espao universal.
Que essa conscincia seja uma realidade e um estmulo a todos vocs, companheiros de jornada, colegas de cena nesse teatro fabuloso que  a escola da vida.
Boa leitura!
Gabriel Cbalita
Primavera de 2003

SHERAZADE E O VALOR DO AMOR

Ainda que eu falasse lnguas, as dos homens e a dos anjos (...) se eu nb tivesse amor, eu nada seria.
Primeira Carta de So Paulo aos Corntios, cap. 13


J
ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
A palavra amor vem do latim amor, que quer dizer "amizade, dedicao, afeio, ternura, desejo grande, paixo, objeto amado"1. Os registros histricos sobre a evoluo 
grfica do vocbulo indicam que o termo j aparece grafado como amur no sculo XIV e aamoor e hamor no sculo XV.
, sem sombra de dvida, uma das palavras mais fascinantes em todos os idiomas, tanto na cultura ocidental quanto na cultura oriental. At porque, independentemente 
da lngua escolhida, os significados desse termo trazem em seu bojo um carter vigoroso e mltiplo. O amor  um conceito diverso, repleto de contrastes, antteses, 
paradoxos e peculiaridades que o tornam to singular quanto complexo. Por isso defini-lo  muito mais do que uma simples demonstra-

20    ' Vi DAGOGIA PP AMOR
o de conhecimento lingstico,  antes de tudo uma empreitada desafiadora. Prova de toda essa variedade de significaes e dessa intensa batalha de antteses presentes 
numa mesma palavra pode ser evidenciada num pequeno rol de citaes que explicita boa parte de sua dinmica conceituai. Basta lembrar que o amor pode justificar, 
determinar, agregar, permitir, superar, perdoar, prolongar, solicitar. 0 amor tambm condena, absolve, revela, esconde, simula, expe... O amor orienta, desnorteia, 
incendeia, esfria, congela, fei ve... No amor esto presentes, ao mesmo tempo, os quatro elementos e os cinco sentidos... Por ele se luta, por ele se ganha, por 
ele se perde, por ele se joga, por ele se brinca, por ele se chora, por ele se vive, por ele se morre... Ele ataca e defende, derruba e sustenta, grita e silencia...
Para que no restem dvidas sobre suas facetas contraditrias, vamos recorrer aos dizeres geniais do poeta Lus de Cames, que, para muitos, foi o responsvel por 
criar a linguagem do amor em lngua portuguesa.  o que expressa o soneto abaixo:
Amor  fogo que arde sem se ver  ferida que di e no se sente  um contentamento descontente  dor que desatina sem doer

SHERAZADE F O VAL!>R r"> AMOR'    21
 um no querer, mais que bem querer  solitrio andar por entre a gente  nunca contentar-se de contente  cuidar que se ganha em se perder
E querer estar preso por vontade  servir a quem vence, o vencedor  ter com quem nos mata lealdade
Mas como causar pode seu favor
Nos coraes humanos amizade
Se to contrrio a si  o mesmo amor?
E, j que estamos falando em lngua portuguesa,  importante ressaltar que o termo tem numerosas acepes no dicionrio, o que permite ao leitor um leque extenso 
de possibilidades de acordo com o emprego pretendido. Dentre elas, destacamos: "forma de interao psicolgica ou psicobiolgica entre pessoas, seja por afinidade 
imanente, seja por formalidade social; atrao afetiva ou fsica que, devido a certa afinidade, um ser manifesta por outro; forte afeio por outra pessoa, nascida 
de laos de consanginidade ou de relaes sociais; atrao baseada no desejo sexual; afeio e ternura sentida por amantes; relao amorosa, aventura amorosa; caso, 
namoro; atrao sexual natural entre as outras espcies animais; o ato sexual;

22      PEDAGOGIA DO AMOR
afeio baseada em admirao, benevolncia ou interesses comuns; calorosa amizade; forte afinidade; fora agregadora e protetora que sentem os membros dos grupos, 
familiares ou no, entre si; a pessoa ou a coisa amada ou apreciada; comunho ntima, coeso com o universo, com ou sem conotao religiosa; Deus como princpio 
dessa coeso universal; sentimento como de afeio e benevolncia paterna atribudo a Deus em relao aos homens; devoo afetuosa devida a Deus por suas criaturas; 
sentimento de caridade, de compaixo de uma criatura por outra, inspirada pelo sentido de sua relao comum com Deus; devoo de uma pessoa ou um grupo de pessoas 
por um ideal concreto ou abstrato; interesse, fascnio? entusiasmo, venerao; o objeto de tal interesse ou venerao; demonstrao de zelo, dedicao; fidelidade; 
ambio, cobia; um deus ou a personificao do amor; cada uma das divindades infantis subordinadas a Vnus e a Cupido; galanteios, expresses amorosas".
A lista de definies ou tentativas de definio  longa. Mas seja na gramtica, seja na poesia, seja na etimologia, seja na filosofia, a verdade  que basta estar 
vivo para saber - de maneira consciente ou inconsciente - que o amor transcende qualquer cincia. Ele nasce, cresce e se multiplica, ocupando espaos maiores ou 
menores, mas sempre edificados com o que h de mais nobre no esprito e no corao do ser humano.

SH(RA7\DF Y O VAI.   ;         \MOR!     23
PARA RECORDAR A HISTORIA: S MIL E UMA NOITES
Sherazade , sem dvida, a grande dama de As mil e uma noites, um conjunto de histrias cujos registros no nos permitem conhecer as datas exatas em que foram escritas, 
tampouco a sua autoria. Os diferentes gneros que compem as narrativas - contos, fbulas, lendas, novelas, parbolas, anedotas e aventuras de carter extico - 
bem como a mistura de referncias geogrficas e culturais existente nas tramas tornam praticamente impossvel creditar os textos a um nico autor. Nomes, costumes 
e indicaes lingsticas caractersticos de pases como ndia, Turquia, Ir, Iraque, Egito e at mesmo da Grcia so encontrados nas histrias, reforando a hiptese 
da mltipla autoria.
O registro escrito mais antigo de As mil e uma noites data do sculo IX. A coletnea de contos  novamente mencionada no sculo seguinte, mais precisamente em 987, 
pelo historiador rabe Al-Masudi. Consta que a expresso As mil e uma noites pretendia apenas evidenciar o grande nmero de histrias reunidas, mas, com o passar 
dos anos, esse ttulo terminou por estimular que compiladores e tradutores fizessem acrscimos  coletnea, subdividindo os contos e acrescentando outros ao livro.
A personagem Sherazade, no papel de narradora,  a espinha dorsal que sustenta todos esses fantsticos en-

24     PEDAGOGIA DO AMOR
redos orientais. Ela  detentora dos mistrios, das lendas e tradies que, h milhares de anos, vm seduzindo leitores e ouvintes de todas as nacionalidades.
Essa histria especfica relata que o poderoso sulto Shariman, do antigo Oriente, foi vtima da infidelidade da primeira esposa e, por isso, jurou a si mesmo jamais 
confiar novamente no amor de uma mulher. Dono absoluto do poder em Bagd, Shariman decidiu que se casaria com uma mulher a cada dia e, aps a noite de npcias, mandaria 
execut-la ao nascer do Sol. Dessa maneira, imaginava o triste sulto que evitaria novas traies. Muitas foram as jovens escolhidas para despos-lo. Suas famlias, 
que no ousavam desobedecer s ordens do soberano, sofriam com o cruel destino imposto s filhas: o amor fugaz e a morte iminente.                             '
Algumas donzelas, aterrorizadas com a possibilidade de ser escolhidas por Shariman, fugiam para lugares distantes. E assim todos os domnios de Bagd viviam sob 
o horror da triste e amarga histria de seu sulto.
Chegou, enfim, o dia em que o vizir Mustaf, encarregado por Shariman de escolher suas futuras esposas, no encontrou mais nenhuma jovem para levar ao seu senhor. 
J era bem tarde quando o vizir entrou em casa, com uma expresso sria no rosto, preocupando suas duas filhas, Sherazade e Deniazade. A mais velha, Sherazade, percebendo 
a tristeza e o nervosismo do pai, Props uma soluo que resolveria o problema no s

SHFRAZADE E n VAIOU no AMORI    25
do querido pai mas de todo o reino: oferecer-se como esposa ao rancoroso sulto. Mustaf tentou demover a filha dessa idia arriscada, mas a bela jovem estava determinada 
a pr em risco a prpria vida para salvar o povo do reino de Bagd.
A formosa e perspicaz Sherazade consumia seus dias na leitura de histrias, ouvindo, encantada, as mais diversas lendas e contos, instrua-se nas cincias e, alm 
de tudo, era dotada de memria prodigiosa. Sua inteligncia, aliada ao mundo mgico desvendado pela leitura, muniu-a do raro e fascinante poder de lidar com as palavras. 
E era nesse seu poder de seduo que a bela jovem confiava para salvar o reino de tamanha crueldade! A seduo de narrar histrias...
No dia seguinte, Sherazade e o pai seguiram para o esplendoroso palcio de Bagd para se apresentar ao sulto. Shariman, fascinado pela beleza da jovem, aceitou 
despos-la imediatamente. A astuta noiva, no entanto, j fizera seus planos. Na noite de npcias, conforme havia combinado com sua irm mais nova, Deniazade chegou 
aos aposentos do casal chorando e pediu  irm que lhe contasse uma de suas fantsticas histrias. Sherazade, com voz doce e melodiosa, comeou ento sua narrativa, 
prendendo a ateno do sulto e da irm at o amanhecer. Shariman ouviu-a atentamente, encantado e ansioso pelo final. Ela, no entanto, percebendo o olhar curioso 
do marido, interrompeu a narrativa no

'\
26    ! PFOAUOGIA DO AMOR
ponto culminante. O sulto decidiu, ento, poupar sua vida para que ela pudesse dar continuidade  histria na noite seguinte.
Usando o sagaz artifcio de emendar uma histria na outra, Sherazade vai adiando a data de sua morte sempre para o dia seguinte. E assim, encantando e despertando 
a curiosidade de seu cruel esposo com suas envolventes narrativas, passaram-se mil e uma noites.
E ento que Sherazade, j com a imaginao esgotada de tecer tantas histrias durante aquelas infindveis noites, se v diante de Shariman, mas agora ele est per-didamente 
apaixonado e seduzido.
O nobre sulto, cuja alma sofria encarcerada pelo sentimento de vingana, liberta-se da dor e da tristeza da traio, abolindo o cruei destino das esposas, que aterrorizava 
todas as famlias de Bagd.
Sherazade, alm de sua extrema beleza, trazia consigo um tesouro oculto: a seduo pela palavra. Um poder que lhe valeu a prpria liberdade e a libertao de uma 
alma, traduzida, neste conto, na transformao do dio em uma linda histria de amor.

SliFRAMDE  '1 \'\l O1    i""i AMOR1      27
AMOR. UMA ODE  VIDA
A presena de Sherazade  imprescindvel neste livro. A personagem simboliza a importncia da narrativa, das histrias, do aprendizado, da seduo do discurso e 
do poder da palavra na vida de todos ns. Durante mil e uma noites, ela exerceu seus talentos, adquiridos e aprimorados por meio de leituras diversas, da paixo, 
do interesse e do amor pela oralidade de seu povo. Uma oralidade traduzida em lendas, contos fantsticos, histrias maravilhosas que se entranharam na mente e no 
corao de Sherazade, figura feminina excepcional por sua inteligncia, perspiccia e criatividade, algumas das qualidades essenciais  conquista da liberdade humana. 
Liberdade que nos permite arriscar, sonhar, ousar, mas tambm nos d a grande probabilidade de ser bem-sucedidos em nossos empreendimentos, como ocorreu com Sherazade. 
Uma liberdade que tem como pano de fundo o amor.
Essa nsia por liberdade, essa sede intensa de viver, esse amor passional e incomensurvel pela vida e pelo mundo constituem as principais caractersticas dessa 
personagem marcante. Sua extrema amorosidade, seus dons naturais, sua linguagem encantada e seu jeito envolvente de contar histrias foram desenvolvidos dia aps 
dia, tornando-a imbatvel na arte de seduzir por meio do verbo, livre, enfim, para conquistar tudo o que quisesse.

28      PEDAGOGIA DO AMOR
Sherazade traz em si um misto de valores nobres na medida em que sua histria nos mostra uma herona corajosa, solidria, altrusta, autoconfiante, inteligente, 
criativa, ousada...
Atentemos para o fato de que a protagonista de As mil e uma noites no foi escolhida pelo sulto para ser sua esposa. Filha do vizir Mustaf, Sherazade estava livre 
da sina maldita imputada s moas de Bagd, que, uma vez escolhidas pelo sulto, deveriam casar-se com ele, viver uma noite de amor e morrer no dia seguinte. Nossa 
herona ofereceu-se para ser esposa do sulto confiante em poder seduzi-lo com suas histrias interminveis. Se a sua estratgia desse certo ela adiaria a prpria 
morte, e em conseqncia a das outras moas do reino, por tempo indeterminado.
Seu ato de amor, coragem e altrusmo constitui um dos gestos mais belos da literatura universal. Sherazade eleva a figura feminina a uma condio de destaque rarssima 
na cultura oriental, mesmo no terreno da fico literria. Basta lembrar os protagonistas das histrias narradas pela prpria Sherazade. Se nos ativermos s mais 
conhecidas, como Aladim e o gnio da lmpada, Ali Bab e os quarenta ladres e Simb, o marujo, veremos que as personagens masculinas predominam nos papis centrais 
dos enredos.
A histria de Sherazade  um exemplo da habilidade  da competncia, da amorosidade e do esprito de

SHERAZADE  O VALOt
29
doao existentes, em maior ou menor grau, em todas as mulheres. Porm ela nos ensina a todos, independentemente do sexo, que o conhecimento apreendido por meio 
das histrias  fundamental para iluminar os caminhos - muitas vezes tortuosos - de nossas vidas.
A bela e sbia personagem oriental nos ensina tambm que a rapidez de raciocnio, a criatividade e a capacidade de persuaso e de argumentao so imprescindveis 
 resoluo de problemas e ao enfrentamento das situaes difceis pelas quais todos passamos na vida.
O corpo, a fala, os gestos, o olhar, o modo como nos expressamos e nos apresentamos ao mundo... Tudo  linguagem, tudo comunica, tudo em ns compe a histria que, 
dia a dia, escrevemos sem nos dar conta. Somos um complexo e requintado sistema de comunicao que emite sinais e cdigos, os quais originam informaes variadas 
aos nossos interlocutores.
Nosso corpo, nossa postura, nosso estilo, nosso modo de ver o mundo e de viver so como palavras, frases e pargrafos que do ao texto a coeso e a coerncia necessrias 
para que possamos compreend-lo na ntegra. Se no redigimos o texto de nossas vidas com competncia e elegncia, estamos condenando nossa histria ao desprezo de 
todos os leitores, ao total esquecimento. O resultado  que nada restar de ns seno rabiscos, garatujas, esboos da grande obra que poderamos ter sido, que no 
fomos e que jamais seremos.

f
30    : PEDAGOGIA no AMOR
Sherazade nos ensina que o que somos, pensamos e vivemos , na verdade, um misto de todas as nossas experincias acumuladas e (re)elaboradas e o modo como elas nos 
tocaram desde muito antes de nossa memria consciente. Somos, por extenso, um emaranhado vivo de histrias, tanto as que protagonizamos quanto aquelas a que tivemos 
acesso como ouvintes ou leitores. Ns nos mesclamos a elas, nos enredamos em suas tramas e, de repente, passamos a ser a fibra forte que compe o texto (do latim 
textum, que significa "aquilo que foi tecido").
Somos, alm de tecido, esponjas. Os sonhos, os exemplos, as sensaes captadas nas histrias alheias so, para ns, uma espcie de alimento. Um po todo especial 
que nos abastece e possibilita nosso crescimento e sadio desenvolvimento.         ,
Guardadas as propores, podemos dizer que trazemos na essncia um pouco do barro que deu forma  personagem Aladim - ladro, anti-heri, descrito por Sherazade 
como um sedutor de astcia invejvel que ura a sorte grande ao encontrar a lmpada mgica. Ns tambm nos apropriamos dos bens alheios. Se analisarmos friamente, 
veremos que, sem pedir licena, tomamos posse das experincias, das histrias e dos conhecimentos com que deparamos em nossa existncia. Cleptomanacos incorrigveis, 
vamos enriquecendo, ganhando status e nos transformando em objeto cobiado para outros Aladins.

SHERZAPI 
 \MI
31
 isso Somos um misto de todas as personagens que conhecemos e admiramos. Muitas vezes, precisamos ser ousados, geis e destemidos como Simb, o marujo em suas sete 
viagens fantsticas, que o levaram a enfrentar gigantes, monstros, serpentes e outras criaturas malignas. Em outras ocasies precisamos ser impetuosos e sagazes 
como Ali Bab, que no resistiu  tentao de conhecer o interior da caverna mgica que abrigava os tesouros escondidos pelos famosos quarenta ladres da poca.
Assim  o ciclo interminvel das histrias que se misturam e se embaralham, formando um quebra-cabea gigantesco, desafiador e que vai sendo montado aos poucos, 
no decorrer da aventura humana.
Precisamos buscar em nosso ntimo a seduo e a habilidade de Sherazade, de modo a transmitir a nossas crianas e jovens a beleza e a riqueza incalculvel das histrias. 
Histrias que nos auxiliam a compor no s nossa prpria personagem, enredo e obra, mas, sobretudo, histrias que nos capacitaro, com seus ensinamentos, a ser livres, 
cartgrafos de nossa prpria geografia, escritores de textos imprescindveis  comunidade,  sociedade,  nao, ao mundo em que vivemos.
Nas histrias encontramos ensinamentos que nos libertam e, ao mesmo tempo, nos habilitam a lutar pela liberdade daqueles que ainda so subjugados por sul-tes, piratas, 
ditadores, governantes do mal, prisionei-
M
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$
f
32    ' PEDAGOGIA no AMOR
ros de sua extrema ignorncia ao no enxergar o real sentido e a verdadeira beleza da vida.
Sherazade  uma multiplicadora de felicidade e, sobretudo, de amor.  uma mulher que liberta a si mesma, liberta as jovens de Bagd, prximas vtimas do sulto, 
e liberta ainda seu algoz, Shariman, aprisionado pelas amarras do dio, da frustrao e da mgoa desencadeada pelo desamor e por sua incapacidade de extrair lies 
de vida das experincias negativas. A musa das histrias orientais ensina que dio no se combate com dio, agressividade no se combate com agressividade, violncia 
no se combate com violncia... Muito diferentes disso, os instrumentos sugeridos pela princesa para combater as agruras do mal so a ternura, o afeto e a inteligncia. 
,
Que Sherazade, essa musa incontestvel do amor, do esprito de doao e de entrega, da seduo pela palavra e da libertao, nos alimente com seu amor fraterno, 
nos inspire e nos d asas nesse vo rumo  conquista de novos aprendizes, novos Aladins especiais que ousem se apropriar, multiplicar e compartilhar saberes por 
meio daquelas que lhes do a vida, as histrias... Verdadeiras mes que emocionam por seu desprendimento em dividir o que tm de mais valioso com toda a humanidade. 
Que ns possamos, ento, reverenci-las como se deve.

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DAMON E PTIAS E O VALOR DA AMIZADE


O que  um amigo? Uma nica alma habitando dois corpos.
Aristteles


^
ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
A palavra amizade vem do latim amicitia, que significa "amizade, afeio, simpatia, aliana, pacto". Estudos etimolgicos indicam que entre os sculos XII e XV o 
termo teve os seguintes registros grficos: amiade, amizade, amyzada, amizidade e amiizade. Dentre as acepes encontradas para o termo, temos: "sentimento de grande 
afeio, de simpatia (por algum no necessariamente unido por parentesco ou relacionamento sexual); grande apreo, solidariedade ou perfeito entendimento entre 
entidades, grupos, instituies etc; reciprocidade de afeto; aquele que  amigo, companheiro, camarada; relacionamento social; concordncia de sentimentos ou posio 
a respeito de algum fato; acordo, pacto, aliana; apego (de alguns

36    ' PMIAGOGIA DO AMOR
animais) pelo homem; atitude ou gesto de benevolncia, de complacncia".
Mesmo com todas essas possveis significaes do termo amizade, no podemos esquecer que estamos nos referindo a um conceito abstrato e que, portanto, no  palpvel, 
no  mensurvel, no  visvel. Para o filsofo grego Aristteles, a amizade  antes de tudo uma grande virtude.  tambm o bem mais precioso da vida porque, sem 
ela, de nada adianta ter poder, dinheiro e sucesso.
No livro tica a Nicmaco - verdadeiro tratado sobre o bem viver escrito pelo filsofo especialmente para que seu filho Nicmaco pudesse conhecer as normas, as condutas 
e os valores que devem pautar a vida em sociedade -, Aristteles discorre sobre a amizade e afirma que ela  superior  justia: "Quando as pessoas so amigas no 
tm necessidade de justia, enquanto mesmo quando so justas elas necessitam da amizade; considera-se que a mais autntica forma de justia  uma disposio amistosa"2.
O fato  que a amizade pertence  esfera dos sentimentos e, como tal, pode ser apenas parcialmente explicada ou descrita, at porque, assim como o amor, a paixo, 
o desejo, a admirao, a solido, a angstia e o medo, a amizade ultrapassa todas as explicaes de carter racional, matemtico, exato.  antes um banquete para 
o esprito, o corao e as sensaes, alm

DAMON P PlTIAS E O VALOR D/      MI/MIE]      37
de produzir material farto para a prosa, a poesia, o cinema, a msica e todas as demais formas de arte.
A literatura - apenas para ficar na seara das letras - profcua na criao de personagens maravilhosas cujas histrias foram construdas rendo a amizade como pilar 
de suas aventuras e peripcias ao longo da trama em que esto inseridas.  o caso de Dom Quixote e Sancho Pana, Joo e Maria, Sherlock Holmes e Watson, Cas-tor 
e Plux, Robinson Cruso e Sexta-Feira e tambm de Damon e Ptias. Todos so personagens riqussimas, cuja elaborao cuidadosa permitiu retratar exemplos de amizade 
to raros e grandiosos que transcendem a esfera do texto e so capazes de aproximar os leitores do significado real desse sentimento nobre. Cabe a ns - leitores, 
ouvintes ou espectadores dessas e de outras grandes histrias - descobrir, semear e multiplicar para alm da fico o valor magnnimo desse sentimento, bem como 
a sensao de plenitude com a qual ele nos presenteia.
Talvez agindo dessa forma possamos comprovar que a amizade  a certeza do porto seguro, do ombro amigo, do abrao forte e do sorriso franco que amenizam dores, derrotas, 
tristezas, angstias, temores e inseguranas que fragilizam o indivduo, ao mesmo tempo que oferecem a ele as condies adversas necessrias ao crescimento e ao 
amadurecimento. Durante esses dois processos dolorosos e contnuos, a

38    i PLDAGOIA DO AMOR
presena de um amigo representa um blsamo com o qual  possvel cicatrizar todas as feridas e recuperar as foras para seguir adiante.
PARA RECORDARA HISTRIA: DAMON E PTIAS
De acordo com o filsofo Ccero, considerado o maior orador romano, a histria de Damon e Ptias se passou no sculo IVa.C, em Siracusa, cidade-estado da Siclia. 
Ainda segundo Ccero, ambos eram seguidores do filsofo Pitgoras.
Damon e Ptias nutriam1 um pelo outro uma amizade verdadeiramente inabalvel. Era um sentimento fraterno que configurava uma singular irmandade, espcie de unio 
e de vnculo espiritual perptuo que, com o passar do tempo, ganhava intensidade e se solidificava cada vez mais. Possuam uma ligao to rara que os tornava, por 
assim dizer, irmos de alma, uma caracterstica nem sempre presente nos irmos de sangue. Sob o signo sagrado desse afeto, Damon e Ptias cresceram juntos e foram, 
gradativamente, descobrindo as maravilhas e as dificuldades da aventura real da vida. Assim, aprenderam a somar e a compartilhar as alegrias e as tristezas da infncia, 
da adolescncia e da idade adulta.

I
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DA.MON F  PTIAS EOVAIOR1       Ml7A0f'     39
I
A fora e a beleza dessa amizade eram conhecidas e admiradas por todos, at que esse lao que os unia precisou ser posto  prova. Certo dia Diomsio, rei de Siracusa, 
enfurecido pelos discursos de Ptias - que pregava a liberdade e a igualdade entre os homens em oposio aos regimes tirnicos -, mandou cham-lo, juntamente com 
o amigo Damon.
Nesse encontro - mais do que propcio ao embate de idias -, Dionsio questionou Ptias a respeito de seus discursos, alegando que suas palavras s serviam para 
perturbar a ordem vigente e causar inquietao entre as pessoas. Ao ouvir isso, Ptias retrucou dizendo falar apenas a verdade e no ver mal nenhum em discorrer 
sobre o que considerava certo. Enfurecido, o rei de Siracusa foi alm e perguntou a Ptias, sem meias-pala-vras, se, dentro da verdade divulgada por ele, os reis 
teriam poder excessivo e executariam leis contrrias ao bem-estar dos sditos. Ptias admitiu pensar assim, afirmando que, se um rei tomava o poder sem o consentimento 
do povo, s poderia estar agindo de forma autoritria e avessa aos interesses populares. Por defender seus princpios, Ptias foi, ento, acusado de traio e condenado 
 morte.
Triste, mas corajoso o suficiente para acatar sua sentena, Ptias solicitou ao rei a realizao de um ltimo desejo: que lhe permitisse voltar a sua casa para despedir-se 
da famlia e concluir alguns assuntos do-

40     PtDAociA. DO AMOR
mestios. O rei relutou, mas, depois de argumentaes de ambos os lados, foi convencido por Damon, que, demonstrando total confiana no carter de Ptias, ofereceu-se 
para morrer no lugar do amigo caso ele fugisse durante a jornada - hiptese levantada pelo rei.
O fato de manter Damon como prisioneiro no lugar de Ptias convenceu o soberano de Siracusa de que poderia descontar no amigo fiel as "insolncias" de Ptias caso 
este trasse a confiana de Damon e desaparecesse de forma irresponsvel e covarde.
Dessa forma, conforme o combinado, Damon foi levado  priso no lugar de Ptias.  medida que os dias passavam, a guarda do rei e o prprio soberano comearam a 
escarnecer do prisioneiro, enfatizando o fato de que o dia e a hora da exeauo estavam se aproximando e Ptias no havia voltado, como prometera. Damon respondia 
s provocaes reafirmando sua confiana no amigo e alegando que deveria ser apenas um atraso, ter acontecido algum imprevisto durante o caminho etc.
O tempo foi passando e, finalmente, chegou o dia marcado para a execuo. Damon foi levado  presena de Dionsio e de seu algoz. Mais uma vez, o rei fez questo 
de lembrar a ausncia de seu amigo e o modo como ele o abandonara. Uma vez mais, Damon respondeu que continuava acreditando em Ptias.
No mesmo instante, as portas do recinto se abriram <- Ptias entrou. Ele estava visivelmente esgotado, pli-

DAMON  PITIAS E O VALORTU AMIZADE!    41
S
do, cambaleante, ferido. Ainda assim, o exausto viajante arranjou foras para abraar Damon e comemorar o fato de t-lo encontrado com vida, apesar de seu atraso. 
Emocionado, Pitias explicou que seu navio naufragara durante uma tempestade e que bandidos o haviam atacado na estrada. Apesar de todos esses contratempos e de estar 
fisicamente debilitado, jamais perdera a esperana de chegar a tempo de salvar o amigo da morte, cumprindo, ele prprio, a sentena determinada pelo rei.
Ao presenciar essa cena, Dionsio foi vencido pela beleza daquele sentimento grandioso que se manifestava de forma comovente diante dos olhos dos presentes. Imediatamente, 
o rei declarou revogada a sentena, admitindo ter cometido um erro. Era a primeira vez que presenciava evidncias de to elevado grau de amizade, lealdade e f. 
Assim, o rei de Siracusa concedeu-lhes a liberdade, solicitando em troca que os dois amigos lhe ensinassem como construir to slida amizade.
AMIZADE: COMUNHO DE ALMAS
Este ttulo resume uma verdade inquestionvel: a amizade  um elo capaz de unir as pessoas para sempre, mesmo que elas estejam geograficamente distantes. Um norte 
apontando caminhos maravilhosos e essenciais s trajetrias

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42     PEDAGOGIA DO AMOR
mais divergentes. Uma receita sofisticada que privilegia a juno de ingredientes de sabores inigualveis...
Uma das caractersticas mais conhecidas das verdadeiras amizades - difcil de explicar, porm -  a capacidade de propiciar o estabelecimento de conexes entre indivduos 
pelas vias enigmticas do pensamento e pela transmisso contnua de energia.  comum, por exemplo, receber um telefonema, uma carta, uma mensagem, um e-mail ou uma 
visita inesperada de um amigo no exato instante em que se pensava nele e em como seria bom t-lo por perto naquele momento.
No resta dvida. A amizade pertence ao rol de sentimentos nobres que regem o afeto entre os homens. Ela determina nossa histria de vida, na medida em que nos concede 
a capacidade de ser mais ou menos felizes, de nos sentir muito ou pouco seguros, de nos saber queridos, amados, compreendidos e respeitados em graus mximos ou mnimos. 
Parafraseando o escritor britnico Oscar Wilde, de fato no h nada neste mundo mais nobre ou raro que uma amizade dedicada.
H quem considere a amizade superior ao amor passional, uma vez que as rotas e navegaes dela so favorecidas por mares freqentemente mais serenos e equilibrados. 
Mares adequados para presentear os viajantes com uma paisagem mais convidativa e uma perspectiva mais tranqila da vida. j o amor fruto das turbulentas paixes 
que conduzem a humanidade a excurses inusi-

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DAMON F PTIAS EOVAfOR D  vM<?Af\F       43
tadas e, por vezes, perigosas parece estar sempre rumando em meio a tempestades que do  vida uma atmosfera arriscada e tensa. Esse  o extremo oposto do panorama 
oferecido pela amizade, que nos leva em direo ao cais, a guas tranqilas e  firmeza da terra que sustenta, ampara e protege todos os navegantes, suprindo suas 
necessidades fsicas e espirituais.
 possvel enumerar vrias formas de amor e de amizade, incluindo-se o fato de os dois sentimentos em geral estarem associados. Ambos podem, por exemplo, ocorrer 
entre membros da mesma famlia ou entre duas ou mais pessoas sem laos de parentesco, mas cujas afinidades extremadas e sentimentos recprocos de bem-querer ultrapassam 
os limites do coleguismo e passam a uma esfera mais elevada.
Alm disso, diferentemente do amor, que pode tambm unir o carnal e o espiritual - estendendo suas fronteiras rumo ao deleite do prazer fsico -, no h restries 
etrias ao nascimento e ao crescimento majestoso da amizade nos coraes humanos. Desde a infncia,  possvel plantar suas sementes e colher seus frutos, estabelecendo 
vnculos perenes que, mesmo esmaecidos em nossa conscincia, permanecem eternos em nossa memria emotiva.  nessa fase que compartilhamos a pureza infantil e descobertas 
significativas que fazem dessa poca um advento nico em nossa histria pessoal.
Da infncia em diante, passamos a uma espcie de
i        r--

44    ' PEDAGOGIA DO AMOR.
educao ininterrupta no quesito relacionamento humano. Ns nos dedicamos a um aprendizado que inclui o entendimento dos olhares cmplices, a linguagem afetuosa, 
o desejo constante do bem-estar fsico e emocional do outro, os gestos solidrios nos momentos de dor e tristeza, a felicidade partilhada nas horas alegres... Tudo 
isso  matria da amizade, mas ainda  pouco para defini-la. A bem da verdade, a poesia e a retrica carecem de termos apropriados para expressar adequadamente o 
que  e como se manifesta esse sentimento nas personagens que o vivenciam em sua plenitude.
E preciso admitir que as lacunas so inevitveis ao explicar fenmenos e acontecimentos que parecem obedecer a ordens, regras e ditames superiores. A amizade  uma 
dessas ocorrncias ^naravilhosas, impossveis de analisar com rigor e preciso cientfica. Resta sentir. Resta abrir o corao... Afinal, todos esto aptos a receb-las 
e repass-las aos demais. At porque, por mais que os momentos de introspeco e solido nos sejam caros, ningum consegue viver todo o tempo sozinho, sem amigos, 
sem afeto, sem carinho, sem uma companhia para dividir as alegrias e as aflies.
Em casa, no trabalho, na escola, no clube, na rua, na fila do banco, no restaurante... A amizade pode estar  nossa espera em qualquer lugar, basta ficar atento 
para perceber suas manifestaes e cultiv-las com ateno e cuidado. Todos podem construir relaes verdadeira-

DAMON  r PTIAS  O V\!OF
mente amistosas, configurando irmandades especials-sin;:is que dispensam os laos de sangue, as influncias genticas, a hereditariedade, as semelhanas biolgicas 
e,  claro, sociais. A amizade  forte o bastante para unir pessoas de classes, raas e culturas variadas, independentemente de suas origens e crenas. O afeto proveniente 
da amizade dispensa ttulos e brases de qualquer natureza.
A histria de Damon e Ptias revela que a amizade agrega em seu bojo uma srie de valores, sentimentos e aes de natureza nobre, como altrusmo, solidariedade, 
tica, confiana mtua, tolerncia, respeito, coragem, amor, afeto e dedicao extremada. Sem essas virtudes, a amizade simplesmente deixa de existir.
Damon e Ptias provam que os laos de afeto podem, muitas vezes, atuar como elemento revolucionrio, transformador da realidade e das pessoas que a compem. Ao final 
da histria dos dois amigos, o rei Dionsio  um ser transformado, por finalmente ter enxergado a nobreza de uma unio espiritual, da conjuno entre duas almas 
que se completam pelas vias fraternais da amizade.
Quem no tem amigos abre espao para uma existncia vazia que, freqentemente, pode levar a estados psicolgicos negativos, como a depresso, a angstia, a ansiedade 
e a tristeza originadas da solido extremada. Estados que so conseqncia de almas que se vem

i.,.
4     PEDAGOGIA no AMOR
relegadas ao desespero de uma vida pautada por valores construdos sobre alicerces imprprios para sustentar as edificaes da felicidade.
Em pleno sculo XXI, milhes de pessoas sofrem desses males e tm sua vida interior comprometida. So vtimas da incompreenso, da intolerncia generalizada e das 
dificuldades de relacionamento que, paradoxalmente, caracterizam a assim chamada Era da Informao e do Conhecimento. As pessoas se escondem, se refugiam em lares 
semelhantes a uma priso, erguem grades que as separam dos vizinhos mais prximos, vivem amedrontadas pela violncia, pela superficialidade das relaes, pela ausncia 
de tica e pelo excesso de egosmo, de mentiras e de ambies que ainda configuram as estratgias do jogo sfocial.
Felizmente, crianas e jovens trazem em si a pureza que os impede de nutrir sentimentos negativos. A inocncia existente em seus coraes permite que perdoem o outro 
com facilidade. Permite que no guardem rancores e mgoas. Permite que dissipem qualquer resqucio de dio, raiva ou vingana que possa ter se apoderado deles por 
momentos. So essas as qualidades que devemos procurar manter em seus coraes pueris, fazendo com que percebam a grandeza de preservar virtudes como essas durante 
toda a vida.
Outra boa histna, dessa vez protagonizada por brasileiros, tambm traduz muito bem o significado da amiza-

D^MON  F  PlTIAS  r O V-\!OR DA          ''*DF        47
de. Ela  narrada pelo mestre paraibano Ariano Suassuna em suas famosas aulas-espetculo, em que o escritor conta "causos" deliciosos a respeito de suas amizades. 
Um deles tem como personagem o educador Paulo Freire, um amigo queridssimo de Suassuna. O escritor revela que, certa vez, encontrou Freire num evento e, extremamente 
saudoso - fazia muito tempo que no se viam -, correu em desabalada carreira para abra-lo, e o fez de forma efusiva, festiva e carinhosa. Como era um evento de 
grande porte, vrios fotgrafos e cinegrafistas da imprensa presenciaram o encontro, mas no tiveram tempo suficiente de escolher os melhores ngulos para registrar 
as imagens espontneas e comoventes dos dois mestres. Pediram ento a Suassuna que repetisse a cena do abrao fraternal. Perplexo com a solicitao, o criador de 
O auto da Compadecida - famoso pelo senso de humor e pela sinceridade -rebateu em seu sotaque inconfundvel: "Hmi, onde j se viu? Ento ser possvel representar 
amizade e afeto? S se eu fosse ator! Como eu no sou, no posso fazer a cena de novo, no. Vocs me desculpem". Nessa oportunidade Suassuna deu uma aula-espetculo 
sobre a amizade, sentimento desprovido de qualquer representao, fingimentos e farsas.
Em outras palavras, mestre Suassuna diz que a beleza da amizade reside justamente na sua inteireza, na sua extrema autenticidade, na capacidade de unir duas almas 
sem nenhum subterfgio, sem mscaras, sem disfarces
I

48    : PEDAGOGIA DO
i
nem representaes de qualquer natureza. At porque, para que o amor-amizade se estabelea realmente, no  necessrio dissimular, posar de super-heri, de pessoa 
imbatvel, auto-suficiente, perfeita... A amizade se alimenta apenas da verdade, da sinceridade, do respeito mtuo. A superficialidade no encontra eco nesse sentimento.
Na vida em geral, os critrios para a felicidade so os mesmos.  preciso proceder sempre de forma verdadeira, autntica, fidedigna. Querer impressionar por meios 
errados, criando, por exemplo, personagens e assumindo posturas que no correspondem  nossa verdade interior,  se condenar ao fracasso. Em qualquer ocasio,  
necessrio ser, sobretudo, genuno e legtimo - como  a amizade.
O amigo ama e pronto. O resto  conseqncia. E conseqncia boa de quem experimenta outros sentimentos que elevam a relao de amizade: ternura, aconchego, compreenso, 
solidariedade, enfim, felicidade.  o cultivo constante e o cuidado com a delicadeza.  podar e regar, diariamente, para que seja para sempre.

DOM QUIXOTE E O VALOR DO IDEALISMO

Acreditar em algo e no viv-lo  desonesto.
Mahatma Gandhi

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ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
A palavra idealismo - termo ao qual podemos atribuir, em grande parte, os sucessos, avanos e conquistas da humanidade ao longo de sua Histria -vem do francs idalisme, 
vocbulo utilizado em 1749 para definir um "sistema filosfico que aproxima do pensamento toda existncia". J em 1828, designava "concepo esttica na qual se 
deve buscar a expresso do ideal acima do real" e, em 1863, "atitude que consiste em subordinar o pensamento e a conduta a um ideal".
Os registros etimolgicos da palavra indicam que ideal vem do latim idealis, o mesmo que "ideal, criado no entendimento ou na imaginao".  formada pelo elemento 
de composio ide(o), do grego idas: "aspecto exterior, aparncia, forma; carter especial,

52
 no AMOR
maneira de ser, espcie; princpio geral que serve de base para uma classificao; idia, forma ideal con-cebvel pelo pensamento, de que cada objeto material  
a reproduo imperfeita; concepo abstrata; gnero ou figura de estilo".
Em portugus, o termo possui diversas acepes: "qualquer teoria filosfica em que o mundo material, objetivo, exterior s pode ser compreendido plenamente a partir 
de sua verdade espiritual, mental ou subjetiva; no sentido ontolgico, doutrina filosfica, cujo exemplo mais conhecido  o platonismo, segundo a qual a realidade 
apresenta uma natureza essencialmente espiritual, sendo a matria uma manifestao ilusria, aparente, incompleta, ou mera imitao imperfeita de uma matriz original 
constituda de formas ideais inteligveis e intangveis; no sentido gnosiolgico, tal como ocorre especialmente no kantismo, teoria que considera o sentido e a inteligibilidade 
de um objeto de conhecimento dependente do sujeito que o compreende, o que torna a realidade cognoscvel heternoma, carente de auto-suficincia, e necessariamente 
redutvel aos termos ou formas ideais que caracterizam a subjetividade humana; no mbito prtico, cujo exemplo mais notrio  o da tica kantiana, doutrina que supe 
o carter fundamenta) dos ideais de conduta como guias da ao humana, a despeito de uma possvel ausncia de exeqibilidade integral ou verificabilidade emprica 
em

DOM QUIXOTE E O VAI.OK no IOVALISMO!    53
"I
tais prescries morais; propenso a idealizar a realidade ou a deixar-se guiar mais por ideais do que por con-                      . sideraes prticas". Em literatura, 
significa "teoria                      j ou prtica que valoriza mais a imaginao do que a                      i cpia fiel da natureza".
Como se v, as acepes so diversas, mas o fato  que as explicaes etimolgicas e gramaticais a respeito do termo ainda so insuficientes para traduzir a sua 
grandiosidade e a sua importncia na histria peculiar dos indivduos e, conseqentemente, na histria cole-

tiva originria da reunio dos pequenos e grandes feitos particulares.                                                                          "
 preciso ressaltar que o idealismo  o grande                      ;
motor das invenes, das descobertas, dos empreendimentos sociais, polticos, econmicos e culturais que possibilitam as mudanas, as realizaes dos sonhos, a concretizao 
de desejos acalentados, muitas vezes, por toda uma vida. O idealismo impulsiona o veculo do tempo pela sua infinita e enigmtica viagem rumo ao futuro. Falamos 
de um combustvel essencial  experincia humana, na medida em que propicia o conhecimento, a busca de novos desafios e a determinao para ultrapassar as barreiras, 
sejam elas concretas, sejam abstratas.
Sem exageros, podemos dizer que o idealismo est para a vida como o corao est para o corpo. Enquanto este rgo  o responsvel pelo bombeamento

\    j PEDAGOGIA DO AM-"-
I
de sangue para todos os demais, garantindo o pleno funcionamento da mquina humana, o idealismo, por sua vez, ativa os dispositivos necessrios  superao dos limites, 
permitindo s pessoas o acesso  essncia vital que torna os seres humanos to surpreendentes, imprevisveis e especiais.
PARA RECORDAR A HISTRIA: DOM QUIXOTE
O clssico Dom Quixote, do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), narra,  maneira das novelas de cavalaria, os feitos do Cavaleiro da Triste 
Figura, como ficou conhecido o protagonista da trama. O autor, inconformado com o sucesso que essa espcie de gnero literrio fazia com o grande pblico -constitudo 
na maioria de ouvintes analfabetos -, realizou uma das maiores stiras aos preceitos que regiam as histrias fantasiosas daqueles heris.
Cervantes narra a aventura de Dom Quixote de La Mancha, codinome com que se auto-intitula o fidalgo Dom Quesada ou Quixano, homem obcecado pelos princpios dos cavaleiros 
andantes que resolve sair pelo mundo montado em seu cavalo Rocinante e acompanhado do fiel escudeiro Sancho Pana, vizinho ingnuo

DOM QUIXOTE E O VAIOR no >IH \. ^MS]   55
 e dispe a segui-lo em troca de uma possvel ilha prometida como pagamento. As peripcias vividas pelos dois fazem dessa obra uma leitura hilariante.
Nessa incurso vertiginosa, misto de realidade e sonho, Dom Quixote trava batalhas com numerosos inimigos imaginrios, como os moinhos de vento, que ele julgava 
serem gigantes. Movido pelo desejo herico de defender os fracos e oprimidos, Dom Quixote  uma vtima do excesso de devaneios, que o levam para longe da realidade. 
Assim, sua amada, a doce princesa Dulci-nia dei Toboso, nada mais  que a idealizao de uma camponesa que, definitivamente, no primava nem pela beleza nem pelos 
bons modos.
O Cavaleiro da Triste Figura v castelos onde h apenas modestas acomodaes, enxerga belas princesas em camponesas, transforma em saqueadores e ladres simples 
viajantes... Juntos, Dom Quixote e Sancho Pana protagonizam situaes tragicmicas muitas vezes de uma pungncia verdadeiramente comovente. Logo, toda a regio 
ouve falar das enrascadas vivenciadas pela dupla, especialmente dos delrios de Dom Quixote.
Os preceitos das antigas Ordens de Cavalaria, subjacentes  histria, sG obedecidos pelo heri. Convencido de que era um valente cavaleiro, Dom Quixote passa a 
combater brutalidades e injustias sociais, defendendo os mais fracos, como vivas, crianas e donzelas, e dedicando seus feitos hericos  dama que elegeu como 
sua amada.

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56    IPEDAGOGK DO AMOR
1
Miguel de Cervantes, consagrado escritor espanhol,  considerado um dos quatro gnios da literatura ocidental. O criador de Dom Quixote divide a fama com o grego 
Homero (sculo VIII a.C), o italiano Dante Alighieri (sculo XIII) e o ingls William Shakespeare (sculo XVII). Cervantes no realizou estudos regula-res. Como 
soldado, esteve preso na Arglia durante cinco anos. De volta  Espanha, nunca arranjou um emprego decente e, durante toda a sua vida, viveu na pobreza. Dom Quixote 
foi escrito enquanto Cervantes estava na priso devido a falsas acusaes.
Em maio de 2002, Dom Quixote foi eleito por uma comisso de crticos literrios de vrias partes do mundo a melhor obra de fico de todos os tempos. Considerada, 
portanto, um dos textos fundamentais da lite- * ratura universal, essa obra nos d a possibilidade de viajar e de nos conectar a um mundo paralelo. Um mundo regido 
pela fora do sonho e do idealismo.
Quando lemos a histria de Dom Quixote, somos convidados a atravessar uma espcie de portal mgico que nos leva a uma dimenso propcia  realizao de nossos desejos 
mais ntimos e nobres.  como se adentrssemos um reino sutil, cujo governante  um cavaleiro valente e justo. Um cavaleiro verdadeiramente preocupado em cultivar 
o amor mais puro no s por sua amada idealizada como por toda a massa popular, constituda de uma gente pobre, fraca, oprimida, mas

S>W                                                                                                   ..                           *
DOM QUIXOTF E O VALOR no m     -MO[   57
feliz por ter conseguido, finalmente, um protetor  altura de suas necessidades.
IDEALISMO:
UM PASSAPORTE PARA O BEM VIVER
Como todos os clssicos da literatura universal, a obra de Cervantes pode ser comparada a uma jia de valor inestimvel. Ao escrev-la, o autor redigiu uma espcie 
de testamento, beneficiando, ainda em vida, toda a humanidade. Somos, por assim dizer, herdeiros, descendentes e multiplicadores dos conceitos, das aventuras, das 
glrias e das mazelas descritas pela pena especials-sima do escritor, artista e visionrio espanhol.
A genialidade do autor est presente nessa narrativa rebuscada, bem-humorada e extremamente crtica. Temos, nessa obra, uma anlise excepcional da Histria do seu 
tempo, construda por meio da stira mordaz de um observador perspicaz, atento, questionador e profundamente inconformado com o que via em redor. As criticas s 
novelas de cavalaria so, na verdade, uma desculpa para analisar a sociedade da poca.
O que poderia ser apenas mais um livro a retratar Seu tempo e os costumes de uma poca, porm, tornou-Se uma obra-prima sobre o amor fraternal de um ho-

58      : PtDAOGlA. DO AMOR
mem-heri, um homem-poesia consumido pelo desejo de servir ao prximo, de ser valente, de ser capaz de, com a sua fora e as suas armas imaginrias, derrotar todo 
o mal que tentasse se opor  felicidade humana.
Tal qual um espelho de poderes extraordinrios, o clssico de Cervantes reflete a dor e a delcia da condio humana, compondo um retrato vivido e multicolorido 
dos sentimentos, dos prazeres e dos tormentos viven-ciados tanto pelos viles quanto pelos heris que dividem a cena no palco da vida. Hbil em registrar o contrrio 
de tudo o que se posiciona  sua frente, o espelho de Cervantes revela a dupla face de nossa existncia: razo e emoo, utopia e ceticismo, guerra e paz, sonho 
e realidade, dor e prazer, claro e escuro, matria e esprito. Essa capacidade - prpria ds grandes gnios da humanidade - foi desenvolvida ao mximo pelo criador 
de Dom Quixote.
A genialidade de Cervantes deu aos leitores uma personagem magnfica e encantadora. O Cavaleiro da Triste Figura se revela um louco absolutamente sedutor, que nos 
arrebata e escraviza. Quando nos damos conta, j nos tornamos - como o fiel escudeiro Sancho Pana -vassalos de seus quereres, bonecos hipnotizados e atrados pela 
imensa fora magntica originria de sua paixo e de sua obsesso pela felicidade.
Os grandes personagens, na fico ou na vida real, sempre foram conduzidos pelo idealismo, pelo sonho e
t

ri
DOM QUIXOTF F O VALOR PO IDE*
pelo desejo de transformar a realidade em algo melhor. Escritores, cientistas, lderes polticos e religiosos, revolucionrios de todas as pocas e de todas as causas 
trazem em seus coraes e mentes a cellula mater do idealismo.
Sempre  frente de seu tempo, essas personagens geniais so, antes de mais nada, sedutores potenciais. Homens e mulheres cujo brilho nos olhos, energia incomen-survel 
e fora impressionante de suas palavras e aes hipnotizaram e atraram multides. Multides compostas de milhes de artfices que abriram novas estradas, derrotaram 
viles e plantaram novas sementes. Gente cujo talento foi despertado e desenvolvido graas ao empenho,  dedicao e  viso aguada do idealista que servia de norte 
nos momentos em que todos pareciam estar perdidos.
Idealistas so seres visionrios, tm alma de poeta e corao gigantesco. So pessoas altrustas e abnegadas a ponto de dar a vida pela defesa de seus ideais. Sua 
extrema sensibilidade transforma a mediocridade, em qualquer situao, em oportunidade nica, viso superior, desafio instigante.
Mesmo os idealistas da fico, cujo cone maior  JJom Quixote, so capazes de exercer fascnio seme-manre, a ponto de se tornarem uma referncia perene. A tora 
do romance de Cervantes  tamanha que o nome
seu protagonista transformou-se no decorrer dos anos Um adjetivo que define a maneira de ser daqueles que

   i
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60    i PEDAGOGIA no AMOR
fazem da mistura do sonho, da utopia e da paixo um estilo prprio e um modo de vida. Esse  o motivo pelo qual o termo "quixotesco" costuma ser empregado quando 
encontramos algum ou uma situao que nos lembra Dom Quixote, podendo designar excesso de romantismo e ingenuidade. Pode tambm ser a alcunha de algum que se envolve 
em trapalhadas, caracterstica da personagem da obra de Cervantes.
Como todo grande personagem, Dom Quixote transcende as pginas do livro que narra a sua trajetria, adquirindo vida prpria, passando a fazer parte do imaginrio 
coletivo e ganhando amplitude na mente e nos coraes de todos aqueles que lem sua histria magistral. Dom Quixote encarna, ao mesmo tempo, os aspectos inocentes, 
cndidos e delicados, mas tambm complexos da loucura e da insensatez que podem acometer todos os portadores de sonhos considerados impossveis, inatingveis - pelo 
menos na viso da maioria.
Na literatura brasileira, tambm temos nosso Quixote. Nosso heri tupiniquim protagoniza o romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Como Quixote, 
Quaresma personifica o sonhador extremista, ridicularizado por todos. , tal qual a personagem de Cervantes, um homem movido a paixo, uma paixo febril, prima-irm 
do delrio e me da loucura. Quaresma pretendia, com seus sonhos nacionalistas, mudar o idioma oficial do Brasil para o tupi-guarani.

DOM QUIXOTF i o VAIOR r"   V.--\ M ISMO   '61
Para ele, tnhamos de honrar nossas razes, abrindo mo do idioma imposto pelos europeus. Era um patriota devotado e, como Dom Quixote, solitrio em sua passionaidade.
Romances  parte, muitos dos que ousam singrar os mares da vida armados apenas de sonhos e de idealismo se descobrem desbravadores, heris, conquistadores, criadores 
de novas formas de ver o mundo. Com a mesma paixo de Dom Quixote e de Quaresma, mas munidos de doses mais generosas de razo, suas idias e aes so responsveis 
por mudanas e transformaes fundamentais aos destinos humanos.
Muitas vezes tachados de loucos, sobrevivendo com a carga pesada de se saberem ridicularizados, incompreendidos pelos contemporneos, sofrendo o descrdito absoluto 
de seus pares, desafiando todas as convenes e subvertendo todas as ordens e dogmas vigentes, eles conseguem, apesar de tudo, vencer... Conseguem, a despeito das 
dificuldades, mostrar seu valor, impor novas tendncias, mudar o rumo dos acontecimentos... A esses seres alados que parecem pairar anos-luz alm da viso estreita 
da maioria, devemos a redao das linhas de nossa Histria.
Uma Histria escrita por idealistas... Sonhadores sem s quais no haveria progresso... Sem os quais no haveria cincia... Sem os quais no haveria arte... Apaixonados 
que fazem de seus sonhos um trampolim cole-
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62    i PLDMJCKIA DO AMOR
!
41
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tivo para os sucessos humanos. No caso da personagem de Cervantes, essa capacidade de ao se perdeu porque o Cavaleiro da Triste Figura foi suplantado pela fora 
de suas vontades. Para que tivssemos acesso s peripcias do louco mais fascinante da histria, Cervantes fez o heri de La Mancha cruzar a fronteira que divide 
sanidade e loucura. Fora da tico, no veramos graa em quixotes que realizassem lutas vs contra moinhos de vento.
Trabalhemos e propaguemos as qualidades que podemos aprimorar com o heri espanhol, essa personagem que Cervantes construiu para simbolizar o idealismo, o sonho 
de mudar o mundo e o desejo de servir  humanidade levado s ltimas conseqncias. A cada aventura pitoresca de Dom Quixote, percebemos como seria magnfico se 
todos pudssemos enfrentar as dificuldades, os obstculos e os desafios da vida com um dcimo da altivez, da coragem e da paixo que norteiam as aes do destemido 
cavaleiro andante.
Quando contamos essa histria ou quando sugerimos a leitura da obra para depois discuti-la de forma mais detalhada, temos de procurar destacar sempre a necessidade 
de ter um sonho e um ideal que nos faa lutar, aprender, superar nossas limitaes. Um sonho e um ideal que nos sirvam de passaporte para as conquistas mais difceis 
e mais importantes.
A ausncia de um ideal na vida condena nossa exis-

DOM QyrxoTE E O VALOR nc
 63'
tncia  estagnao, ao tdio e at mesmo  depresso -est ;do, sintoma e doena que atingem milhes de pessoas em todo o mundo. Quando buscamos algo com todo o 
nosso corao, abrimos espao para o aprendizado constante e para o desenvolvimento de talentos e habilidades imprescindveis ao nosso crescimento emocional e intelectual.
Em Dom Quixote, deparamos com um homem bra-vio em cujo esprito pairava o inconformismo dos grandes lutadores. Um homem que pensava reunir em seu corpo magro e frgil 
a fora herclea de um exrcito. Suas caractersticas de louco sonhador, sua batalha perene pelos desvalidos, sua atitude de enfrentar sozinho as adversidades do 
caminho so um exemplo para todos ns e, principalmente, para as novas geraes, que tm a energia, a fora e a disposio caractersticas da juventude.
Mais do que nunca, essa juventude tem de estar preparada para lutar contra viles bem mais complexos que os moinhos de vento. No terceiro milnio, h muitas ameaas 
reais que demandam a coragem e o idealismo de nobres cavaleiros. Estamos apenas comeando uma viagem desconhecida, perigosa e desafiadora. Uma aventura que nos lembra 
a poca das grandes navegaes e descobertas. poca em que o Velho Mundo se tornou mais forte e poderoso justamente porque seus homens embarcavam rumo a novos continentes

f -
64    IPFDAGOGIA no AMOR
arriscando a prpria vida em prol do desenvolvimento, da expanso, das novas rotas de comrcio que se i estabeleciam aps as descobertas realizadas em suas incurses 
martimas.
Sculos depois, vivenciamos, cotidianamente, algo parecido com as sensaes ambivalentes provocadas por essas viagens paradoxais. Paradoxais porque unem, a um s 
tempo, o fascnio e o terror pelo desconhecido. Da a necessidade de idealistas, sonhadores e aventureiros que sigam rompendo barreiras e transpondo os obstculos 
deste novo tempo.
Tempo sem precedentes, em que o avano da cincia e da tecnologia estabelece uma nova dinmica dos relacionamentos e dos processos, alm de viabilizar, com extrema 
velocidade, a pirculao das informaes. Os veculos de comunicao de massa e a internet possibilitam o acesso imediato a milhares de notcias, propagando saberes 
e possibilitando conhecimentos. De repente, temos a impresso de ter quase tudo ao nosso alcance... Mas quais so, efetivamente, as implicaes desse fato?
Pela primeira vez na Histria, fazemos parte de uma era que une o real e o virtual. Um fato com o qual ainda no sabemos lidar e que vem tomando propores cada 
vez maiores. Um fenmeno decisivo para a mudana de comportamento e para o surgimento de um sem-nmero de dvidas, temores e conflitos psicolgicos.

DOM QUIXOT  o VAIOR EM      IMISMO     65
Nesse redemoinho catico em que estamos inseridos - sugados muitas vezes sem ao menos nos dar conta -deparamos com algumas perguntas que insistem em no querer calar: 
ser mesmo que esse mundo moderno, cada vez mais semelhante s projees feitas nos filmes de fico cientfica, nos permite obter mais preparo para enfrentar problemas, 
mudanas e imprevistos de toda a ordem? Ser que hoje somos mais felizes do que fomos ontem? Ser que todo o avano tecnolgico pode substituir o dilogo, a reunio 
em famlia, o contato direto entre as pessoas, as amizades e os amores fundamentados no respeito mtuo, na tica, no cumprimento da palavra empenhada?
 verdade que, no passado, no tnhamos acesso a um mundo de coisas que, hoje, consideramos essenciais. No tnhamos, por exemplo, alguns remdios e vacinas que 
prolongam a vida humana com qualidade. No tnhamos a possibilidade de abastecer a despensa sem sair de casa. No tnhamos, tambm, as facilidades dos meios de comunicao... 
Em contrapartida, nossos antepassados desfrutavam da cumplicidade do velho boticrio, figura simptica que conhecia toda a clientela pelo nome e tinha sempre  mo 
um remdio, um ungento, um ch para qualquer mal-estar. Tinham, ainda, a confiana do dono do armazm e podiam pagar as despesas no nm do ms... Nossos antepassados 
desfrutaram, tambm, de domingos poticos... Domingos sagrados, em


 DO AMOR
II
que a comunidade se encontrava nas igrejas, nas praas, nos parques de diverso, nos festejos tradicionais
de cada regio.
Esse "sentimento de domingo", a saudade dos tempos em que o "ser" valia muito mais que o "ter",  magistralmente descrito pela poetisa Adlia Prado no poema "Para 
comer depois", do livro Bagagem:
Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se pem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
"Eh bobagem!"
Daqui a muito progresso tecno-ilgico,
quando for impossvel detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu pas de memria e sentimento,
basta fechar os olhos:
 domingo,  domingo,  domingo.
Na verdade, todas essas modificaes da realidade externa parecem estar provocando no interior das pessoas um movimento contrrio. Um movimento que promove a desacelerao 
das idias, da criatividade, das aes. Um exemplo assustador  o fato de nos comunicarmos cada vez menos. Se  verdade que estreitamos os laos virtuais, isso no 
pode, nem de longe, ser com

DOM QI)!XOTE* o VALOR no
67
parado com o ideal do abrao, do aperto de mo, dos olhos nos olhos.
No estranho mundo das relaes virtuais, h aqueles que vo alm, tentando um novo tipo de relacionamento amoroso em que o contato se restringe ao dedilhar do teclado 
e aos sussurros apaixonados que surgem na tela sob a forma de frases, cdigos e afins. s vezes, o final  feliz, como o retratado no filme Mensagem para voc, protagonizado 
por Tom Hanks e Meg Ryan. O desfecho positivo ocorre para os que ainda guardam consigo um pouco da herana sonhadora de Cervantes e, por isso, transpem a fronteira 
do virtual e optam por firmar contato no mundo real. Esses ainda podem realizar sonhos.
Casos isolados  parte, estamos nos distanciando uns dos outros como nunca. Alm das horas de conversa familiar roubadas pela televiso, temos agora outro vilo 
que tambm utiliza o monitor. O computador tem feito de ns refns. Estamos cada vez mais sedentrios. Somos privados da delcia que  conhecer novos amigos e apreciar 
sua companhia.
O novo milnio traz,  certo, numerosas possibilidades de navegao, mas no estamos livres de piratas mescrupulosos, movidos pela ganncia de encontrar tesouros, 
embarcaes, ilhas e continentes. Piratas vaido-
s' adeptos da competio acirrada que os torna cada mais audaciosos em sua sede de poder. Piratas que

68    j PEDAGOGIA DO AMOR
assumem posies de destaque em todos os setores do
cenrio social.
Necessitamos de quixotes destemidos para enfrent-los, derrotando-os com inteligncia e criatividade, com habilidade para conduzir negociaes que prescindam de 
armas brancas ou de fogo. Espadas, lanas e canhes tm de ser deixados de lado. Os quixotes do sculo XXI tm de agir de forma muito diferente dos heris medievais.
 preciso transmitir s novas geraes os valores essenciais para a vida em sociedade. Valores desprezados pelos piratas que, ao longo da Histria, saquearam e atemorizaram 
todos os portos da Terra. Valores que vm se tornando escassos, valores que vm se deteriorando por absoluta falta de uso. Diferentemente do protagonista criado 
por Cervantes, nossos quixotes no podem viver suas aventuras sob o signo da loucura exacerbada, que impe a falta de discernimento, a irreflexo, o absurdo. Nossos 
heris tm de aprender a desenvolver as qualidades maiores de Dom Quixote. Tm de trazer em seus escudos as insgnias do sonho e do idealismo, associadas aos distintivos 
que simbolizam a conscincia crtica, o respeito s diferenas, a tolerncia, a aquisio e a propagao da cidadania. Tm de lutar pelo resgate e pelo fortalecimento 
dessas virtudes - o que nos levar a uma realidade mais justa e mais fraterna.
Os quixotes do novo tempo tm de correr contra as horas. Devem utilizar os avanos cientficos e tecno-

DOM Qt_'txPM F O VAIOR
69
lgicos a seu favor. Tm de assumir o poder, destituir os piratas e reconduzir o barco  rota correta, uma rota que garanta aos beneficirios do testamento de Cer-vnntes 
um futuro livre da violncia, da injustia, da desigualdade, do desamor, do medo, do isolamento.
Esses novos quixotes tm de contagiar as pessoas com o vrus maravilhoso do sonho, de modo que elas possam aderir s suas empreitadas sem temor. Carecemos de idealistas 
que lutem, produzam, vibrem... Idealistas que nos conduzam como Gandhi, Martin Luther King e a jovem Joana D'Arc conduziram as massas na construo de novos tempos.
Muitas vezes, o que parece impossvel pode se transformar em algo real, palpvel, concreto. Afinal, quem prova que Dulcinia no era uma princesa? Quem imaginava, 
em meados do sculo XVIII, um mundo sem escravido? Quem pensava, na Idade Mdia, que o conhecimento deixaria de ser privilgio do clero e de alguns poucos nobres 
da corte? Em outras palavras: o mundo precisa de idealistas que olhem pela janela, vejam as rosas murchas e, ainda assim, fiquem felizes... Felizes porque conseguem 
enxergar as sementes.


DAVI E GOLIAS E O VALOR DA CORAGEM
!l

Voc ganha fora, coragem e confiana a cada experincia
em que enfrenta o medo. Voc tem de fazer exatamente
aquilo que acha que no consegue.
Eleanor Roosevelt

ti':
ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
A palavra coragem vem do francs courage, que, por sua vez, provm do vocbulo cceur, que significa corao. Assim, aps o ano 1100, passou a designar "disposio 
nobre do corao, qualidade espiritual de bravura e tenacidade". O termo registra as seguintes acepes: "moral forte perante o perigo, os riscos; bravura, intrepidez, 
denodo; firmeza de esprito para enfrentar situao emocionalmente ou moralmente difcil; qualidade de quem tem grandeza de alma, nobreza de carter, ombridade; 
determinao no desempenho de uma atividade necessria; zelo, perseverana, tenacidade; capacidade de suportar esforo prolongado; pacincia; ousadia; desfaatez; 
expresso para infundir nimo, resistncia".

74
rOAGOi.il A
Por essa pequena listagem de significaes, j  possvel ter uma idia da importncia crucial da coragem na existncia humana. At porque ela est sempre acompanhada 
de outras virtudes, to nobres quanto necessrias, como a esperana, a determinao, a ousadia e a paixo, que caracterizam a luta em prol dos sonhos e ideais mais 
difceis de ser alcanados.
Munido de coragem, o ser humano est, por assim dizer, capacitado a trilhar qualquer caminho com a dignidade e a perseverana essenciais s grandes trajetrias. 
Quando h coragem, o esprito  tomado pelo entusiasmo e pela sensao antecipada da vitria, embora nem sempre os corajosos alcancem a vitria no fim de sua jornada. 
Mas h o recomeo, h o aspecto renovado ds novos desafios, h a confiana ilimitada no amanh, h a expectativa redobrada em relao  concretizao dos desejos 
mais impossveis.
Historicamente, a coragem sempre foi valorizada, a ponto de aparecer como virtude-tema de numerosas histrias da literatura universal. Por isso  a qualidade mais 
evidente nos grandes heris, sejam eles protagonistas picos, sejam dramticos...  um tema sobre o qual se debruaram vrios filsofos, dentre eles Aristteles, 
que considerava a coragem uma das virtudes ticas, juntamente com a temperana, a libe-ralidade, a magnanimidade, a mansido, a franqueza e a justia. Para o filsofo 
Ccero os principais atri-

DAVI F GOIIAS F O VMOJP
 GFMJ    75
butos dos corajosos so o desprezo pela morte e o desprezo pela dor.
PARA RECORDAR A HISTRIA: DAVI E GOLIAS
A histria bblica que vamos narrar consta do Antigo Testamento, que rene os textos do Pentateuco, dos Livros Histricos, dos Livros Poticos ou Sapienciais e dos 
Livros Profticos. Mundialmente conhecida por sua beleza e pelos valores nobilitantes que traz implcitos, a histria de Davi e Golias pertence aos chamados Livros 
Histricos e localiza-se, mais precisamente, no Primeiro Livro de Samuel. Os Livros Histricos da Bblia discorrem, principalmente, sobre a relao do povo eleito 
de Israel com Deus, enfatizando a fidelidade e condenando a infidelidade  sua palavra e aos seus desgnios, ento conhecidos por meio dos profetas, homens sbios, 
porta-vozes cuja misso era propagar as leis e os ensinamentos divinos.
Davi era um singelo pastor de ovelhas. Pequeno, franzino e de feies to delicadas que em nada lembra-vam as de um guerreiro. Oitavo filho do belemita Jess,  
jovem Davi era, literalmente, o ltimo na escala da Preferncia paterna, que,  poca, costumava recair sobre Os "erdeiros primognitos. Todos os indcios faziam 
crer


 tf
76    ; PEDAGOGIA DO AMOR
que o filho caula de Jess prosseguiria "o ofcio de pastor durante toda a vida, levando uma existncia pacfica e rotineira. Uma vida sem grandes glrias, derrotas 
nem sobressaltos de qualquer natureza. Entretanto, Davi contrariou todas as previses a seu respeito quando, aos 17 anos, foi tomado pelo esprito divino, sendo 
ungido, na prpria casa, pelo profeta Samuel, que recebera de Deus essa incumbncia.
Sobre essa passagem bblica especfica,  interessante lembrar as palavras de Deus ao profeta Samuel quando este se deparou com Eliab, irmo mais velho de Davi: 
"No te impressiones com a sua aparncia nem com a sua grande estatura; no  este que eu quero. Meu olhar no  o dos homens; o homem v a aparncia, o Senhor v 
o corao" (Primeiro Livro de Samuel, cap. 16, v. 7). E assim Samuel foi dispensando, um a um, os filhos de Jess, at que avistou o ltimo deles, Davi, a quem mandaram 
chamar como a ltima opo a ser apresentada ao profeta. Quando o jovem pastor entrou em casa, o Senhor disse ao seu enviado: "Levanta-te, unge-o:  este!" (cap. 
16, v. 12).
Naquele tempo, o reinado de Saul estava chegando ao fim. O esprito de Deus j se retirara daquele soberano porque, de acordo com a Bblia, o Senhor se arrependera 
de t-lo feito rei de Israel. Isso fez com que o rei se tornasse vulnervel s crises depressivas que o acometiam, acompanhadas de acessos freqentes de insanidade 
e fria. Como forma de acalm-lo nessas

DAVI F GOIIAS E O VAIOR
 77
ocasies, seus servos sugeriram chamar um msico eximi-t na arte de tocar citara, instrumento que fazia com que o rei se sentisse melhor Foi ento que se lembraram 
do jovem Davi, sobre quem diziam: "Sabe tocar muito bem:  um homem valente, hbil no combate, fala bem, de bela aparncia, e o Senhor est com ele" (cap. 16, v. 
18). Foi assim que Davi conquistou a confiana do rei Saul e passou a desfrutar de seu convvio, prestando servios a ele como msico.
Nessa poca, as cidades de Israel foram ameaadas pela presena dos filisteus, que mobilizaram suas tropas para a guerra e ocuparam um monte em Efes-Domin. Saul 
e seus homens ficaram em outro monte, do lado oposto, pondo-se em linha de combate contra os filisteus. Dentre os inimigos, encontrava-se o gigante Goiias, soldado 
de mais de dois metros de altura, conhecido como um campeo na arte do combate. Seu porte fsico e seu histrico de guerreiro invencvel parecem ter sido razes 
suficientes para que ele lanasse um desafio s fileiras que compunham o exrcito de Israel: "Escolhei um dentre vs para me enfrentar numa luta a dois! Se ele conseguir 
lutar comigo at matar-me, seremos vossos escravos. Mas se eu o vencer e matar ento sereis vs os nossos escravos e nos servireis!" (cap. 17, v. 8-10).
Naqueles dias, Davi fora chamado pelo pai, recebendo a misso de levar suprimentos - pes, queijos e gros orrados - para seus trs irmos mais velhos, que haviam

78    j PEDAUIA DO AM
ido para a guerra junto com SauL Chegando l, tomou cincia do desafio lanado pelo gigante Golias e, surpreendendo a todos, decidiu aceit-lo. Ao saber da novidade, 
o rei Saul mandou buscar Davi, presenteou-o com roupas e armas prprias para a guerra, mas questionou sua atitude: "No s capaz de enfrentar esse filisteu. Tu s 
ainda um menino, e ele, um homem de guerra desde a sua juventude" (cap. 17, v. 33). Davi, ento, respondeu a Saul: "Teu servo cuidava do rebanho do pai. Quando vinha 
um leo ou um urso e tomava um carneiro do rebanho, eu os perseguia e matava, tirando-lhes a presa da boca. E, se eles me atacavam, agarrava-os pela goela e os matava 
a golpes. Assim como teu servo matou leo e urso, assim far a esse filisteu incircunciso, como se fosse um desses animais, pois se atreveu a insultar as fileiras 
do Deus vivo" (cap. 17, v. 34-36).
O jovem pastor rejeitou as roupas e armas oferecidas por Saul alegando que no sabia como us-las por falta de costume e, munido apenas de seu cajado, de uma funda 
e de cinco pedras lisas, dirigiu-se ao gigante Golias, que o recebeu com sarcasmo e ironias sobre sua aparncia quase infantil, sua inexperincia e seu despreparo 
para a luta.
Quando nos transportamos para esse cenrio blico em que estava o jovem Davi, ficamos to seduzidos pela trama que, sem nos dar conta, nos pegamos imaginando as 
emoes possivelmente vivenciadas pelo jovem pastor

DAVI K GOMAS E O VAIOR DA             M]    79
1
 instante crucial de sua vida. Em meto a tanto desprezo e descrdito, como estaria se sentindo o filho mais novo de Jess? Quais seriam seus temores, suas dvidas 
e expectativas em relao ao desafio que se dispusera a aceitar? Estaria arrependido? Estaria imaginando o que aconteceria aps o fim do combate? Estaria pensado 
em sua famlia ou no futuro que teria pela frente em caso de vitria? Estaria amedrontado pela possibilidade de perder a vida no duelo? Os registros bblicos revelam 
que Davi demonstrou ter uma f to inquebrantvel, uma coragem e um destemor to infinitos que, a despeito das evidncias fsicas que o tornavam aparentemente inferior 
ao gigante, o jovem foi hbil o suficiente para, num nico golpe, lanar uma pedra certeira na cabea de Golias. O resultado de tamanha destreza, coragem e ousadia 
no poderia ser diferente: o gigante caiu derrotado. Aclamado pelos israelitas, Davi foi nomeado chefe da guarda do rei, tornando-se, em seguida, seu genro e, posteriormente, 
rei de Israel.
UMA LIO DE CORAGEM
Alma de poeta, sensibilidade de msico, habilidade de guerreiro... Assim era o rei Davi. Em toda a literatura universal, bem como nos registros bblicos, poucas 
per-
I

80   | PEDAGOGIA DO AMOR
sonagens conseguiram reunir qualidades to dspares de forma equilibrada para que fossem eternizadas.  raro que, na tessitura de suas tramas diversas, uma histria 
consiga cerzir o seu enredo de modo a torn-lo especial e duradouro a ponto de atravessar os anos provocando o espanto, a admirao e o respeito de milhes de leitores. 
Talvez por isso, apesar dos milhares de anos que se passaram, a histria bblica de Davi e Golias prossiga cativando geraes sucessivas.
Em pleno sculo XXI, essa histria ainda exerce uma atrao irresistvel sobre os que tomam conhecimento da aventura do jovem pastor de rebanhos que, portando apenas 
uma funda, cinco pedras e coragem, derrotou o gigante Golias e, mais tarde, tornou-se rei de Israel. L-la, ouvi-la, debat-la  interpret-la constituem exerccios 
instigantes no apenas para historiadores, pesquisadores e estudiosos das Escrituras Sagradas, mas tambm para milhes de leigos que, ao longo dos sculos, vm sendo 
seduzidos por narrativas que representam a eterna luta do bem contra o mal, do fraco contra o forte, do oprimido contra o opressor.
A magia de uma boa histria reside justamente em sua capacidade de arrebatar, de nos transportar para outro tempo e espao, de nos fazer sonhar, de nos fazer crer 
que somos capazes de realizar a nossa lenda pessoal de forma to competente e bem-sucedida quanto suas personagens.

I
?
DAVI F GOUAS F OVAIOR HA
 81
Precisamos sentir que os feitos hericos dos protagonistas nascem de uma juno milagrosa de emoo e razo, corpo e esprito, masculino e feminino. Precisamos ser 
tomados pelo seu entusiasmo, pela sua f, pela sua crena na superao de obstculos e, sobretudo, pela sua inesgotvel coragem na transformao do impossvel em 
possvel.
A energia e a bravura de Davi nos transmitem mais confiana e mais segurana no despertar de nossos talentos e potencialidades. Sentimo-nos sob a proteo de uma 
espcie de couraa imaginria, mas, ao mesmo tempo, forte o bastante para nos tornar imunes aos possveis ataques de nossos inimigos, sejam eles reais, sejam criados 
por nossos receios.
Davi, o filho caula. Davi, o menino franzino. Davi, o jovem pastor. Davi, o guerreiro inexperiente. Davi, o soldado despreparado. Foram muitas as barreiras que 
Davi encontrou ao longo de sua jornada. Nenhuma delas, entretanto, conseguiu derrot-lo. Os textos bblicos contm muitas histrias que dissertam sobre temas de 
interesse universal. No caso de Davi e Golias, por exemplo, temos um texto voltado, sobretudo,  propagao de um conceito essencial  vida humana: todos ns, mesmo 
os aparentemente mais fracos e despreparados, somos legtimos portadores da centelha divina e, assim, podemos vencer qualquer adversrio que se interponha em nosso 
caminho, impedindo-nos de seguir em frente e de crescer.

82     PEDAGOGIA DO AMOR
* 
A autoconfiana, a determinao e, principalmente, a coragem constituem a trade de sustentao das numerosas qualidades presentes no jovem e hbil Davi -poeta, 
msico e, ao mesmo tempo, guerreiro dotado da inteligncia, da astcia e da ousadia que caracterizam aqueles que detm o esprito de liderana necessrio s conquistas 
e s vitrias que pautam a vida dos grandes reis da Histria. Davi soube fazer de sua vida um exemplo para todos aqueles considerados fracos, desacreditados, despreparados.
Em Davi e Golias temos, na verdade, uma espcie de pico, que narra a guerra entre fortes e fracos. Davi vence a batalha contra o gigante Golias utilizando como 
armas a coragem, a garra e a determinao prprias dos que lutam contra as injustias e as desigualdades sociais. Heris de todos os tempos que no se deixam abater 
pela descrena alheia, pelo negativismo, pelas adversida-des. Soldados do bem que se alimentam e se revigoram com o seu otimismo e a sua vontade de superar desafios.
Esse  um exemplo valioso para as crianas e para a juventude de nossos dias. Davi pode (re)acender nesses jovens a chama da paixo pela vida.  possvel seduzi-los 
para a busca de atitudes proativas, sintonizadas com a fora exterior e interior que, mesmo adormecidas, todos possuem. Os heris, dolos e mitos de todos os tempos 
e histrias tm a funo de instigar, estimular e incitar o nimo necessrio em quem os admira.
1'

 E GoilAS  F O \\IOR H'\ O        ;M:      83
Recordemos que a palavra heri vem de uma raiz gre-ea que >ignifica "proteger e servir". E a maior virtude do heri  a disposio de arriscar a prpria vida em 
defesa de uma causa, de um indivduo ou de pessoas e situaes que dependem do seu apoio, da sua fora, da sua coragem e da sua personalidade altrusta. E isso. 
Um heri  movido pela coragem - virtude que nasce de seu imenso amor e de sua extrema dedicao ao prximo.
Ao vencer o soldado Golias, Davi provou ser possvel combater o mal ou sua personificao mais imediata com os instrumentos de que dispomos, bastando, para tanto, 
muita f, coragem, destreza e habilidade no manejo das ferramentas desenvolvidas pela nossa inteligncia para derrotar os gigantes...
A coragem  o contraponto do medo - experincia de carter paralisante capaz de impedir a ao e de levar ao comodismo. H que se ressaltar, entretanto, que o medo 
 um sentimento profundamente humano e natural. A novidade, por exemplo, pode causar medo: um novo projeto, uma nova empreitada, uma nova maneira de ensinar, de 
agir, de amar. Aquilo que extrapola a esfera do convencional pode provocar temor e acarretar estagnao.  preciso vencer esse sentimento, sob pena de perder a vez 
de subir no palco e, assim, deixar de experimentar os novos espetculos, correndo riscos, caindo, levantando, aprendendo.
Todos aqueles que se propem a voar, a ir alm, a

84    PEDAGOGIA DO AMO>
superar as expectativas devem saber que esto sujeitos s intempries. Mas  preciso enfrent-las. Caso contrrio, passariam toda a existncia vivenciando a rotina 
tacanha de rastejar, de ficar rente ao cho, arrastan-do-se devagar e sempre e tomando o mximo de cuidado para que nada de imprevisvel acontea. Mas ser mesmo 
para isso que fomos feitos? Para rastejar? No podemos acreditar nessa hiptese. A coragem permite que alcemos vos mais altos. A coragem  como um impulso revitalizante, 
uma locomotiva que nos transporta. Ter coragem , sobretudo, ter certeza de que a fascinante aventura da vida no perder os seus mais atrevidos e sedutores momentos.
De acordo com as Sagradas Escrituras, o legado de Davi comeou a ser transmitido por ele mesmo quando, prevendo a proximidade de sua morte, deu o seguinte conselho 
ao filho Salomo: "Vou seguir o caminho de todos os mortais. S corajoso e porta-te como um homem!" (Primeiro Livro dos Reis, cap. 2, v. 2). Davi, ao que tudo indica, 
tinha total conscincia da importncia da coragem e preocupava-se com a propagao desse valor s prximas geraes.

VIDAS SECAS E O VALOR DA ESPERANA

Que-i teve a uicia dv cortar o tempo em fatias, a que se deu
o nome de ano, /< f um indivduo genial. Industrializou a
esperana, fazendo-a funcionar no limite de   msto. Doze
meses do para qualquer ser humano se        Jr <>. entregar
os pontos. Ai:      '<>        -'re da renova,.                -mea
utm vez, cot::     tr;; <     >ero e outra vontaa             .ditar
qiu . ,iqui paii diante rai .   diferente
Ca"                 "'     -ie Andrade


ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
Os estudos relativos  origem da palavra esperana remontam ao vocbulo latino sperantia, proveniente de spes - termo que teria originado a forma aportuguesada esperana. 
Com relao s mudanas grficas sofridas pelo vocbulo ao longo dos sculos, os estudos etimolgicos indicam apenas um registro: asperana, utilizado no sculo 
XIII.
No Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa, h as seguintes acepes: "sentimento de quem v como possvel a realizao daquilo que deseja; confiana em coisa boa; 
f; a segunda das trs virtudes bsicas do cristo, ao lado da f e da caridade (representa-se por uma ncora); expectativa, espera; aquilo ou aquele de que se espera 
algo, em que se deposita a expectativa; promessa; algo que no passa de uma iluso; de-
Er

88    ! PPAGOGIA DO AMOR
signao comum aos insetos ortpteros da famlia dos tetigonideos, especialmente aqueles que apresentam colorao verde".
A maioria das definies do termo leva a crer que a esperana est profundamente ligada ao instinto de preservao e  sobrevivncia fsica e psicolgica da espcie 
humana. A ncora, figura com a qual a esperana  associada na doutrina crist, simboliza justamente o porto seguro, o suporte, a segurana, o abrigo e o caminho 
de volta, elementos que contribuem para que o indivduo tenha uma sensao de proteo, de acolhimento, de aconchego e de conforto inigualveis, mesmo nos momentos 
mais difceis.
Filosoficamente, a esperana  vista como uma das emoes essenciais do esprito humano.  ela que mantm acesas as crenas mais fundamentais que permitem ao indivduo 
desenvolver, aprimorar e executar seus dons e talentos em direo  realizao de seus sonhos e ideais. Assim,  possvel consider-la a base slida em que foram, 
so e sero estruturadas as grandes edificaes, espirituais e materiais, projetadas pelo homem ao longo de sua histria.
Dito de outra forma, a esperana representa um componente imprescindvel tanto nas corriqueiras lutas cotidianas quanto nas imponentes batalhas que o ser humano 
trava no decorrer de sua existncia. Ela , assim, um valioso antdoto que dignifica, revigora,

VIDAS SFCAS E O VALOR !\A         ^A,    89
fortalece e prepara para o enfrentamento de novos desafios.
PARA RECORDAR A HISTRIA: VIDAS SECAS
O mais conhecido de todos os litros de Graciliano Ramos, o romance Vidas secas foi publicado em 1938 e, desde essa data, tem sido reeditado com sucesso estrondoso, 
tornando-se uma das obras mais bem-sucedidas da literatura nacional. O autor nasceu em 1892, em Quebrngulo, estado de Alagoas, onde passou a infncia e parte da 
adolescncia. J adulto, morou algum tempo no Rio de Janeiro, onde foi revisor e redator dos jornais Correio da Manh e A Tarde. Ao voltar para o Nordeste, novamente 
adota o jornalismo como profisso e comea a realizar incurses pela poltica. Entre 1928 e 1930, foi prefeito de Palmeira dos ndios. De 1930 a 1936 estabelece-se 
na capital do estado, Macei, dirigindo a Imprensa e a Instruo do Estado de Alagoas. Nesse perodo, publicou seu primeiro romance, Caets. Em 1936, acusado de 
subversivo e comunista, passa dez meses na priso, saindo em janeiro de 1937. Essa experincia render, anos mais tarde, um fruto literrio, Memrias do crcere. 
Em 1945, Graciliano Ramos filia-se ao Partido Comunista Brasileiro e, em 1952, viaja para a
I

90     i Pf DAGOGIA DO AMR.
Rssia e outros pases comunistas. O relato dessa poca  descrito no livro pstumo Viagem, de 1954. Em 1953, morre no Rio de Janeiro, vtima de cncer.
Em coluna publicada na revista O Cruzeiro, em 1944, Graciliano Ramos explica como nasceu o romance Vidas secas: "No comeo de 1937 utilizei num conto a lembrana 
de um cachorro sacrificado na Manioba, interior de Pernambuco, h muitos anos. Transformei o velho Pedro Ferro, meu av, no vaqueiro Fabiano; minha av tomou a 
figura de Sinh Vitria, meus tios pequenos, machos e fmeas, reduziram-se a dois meninos".
O ttulo do livro de Graciliano Ramos  bastante elucidativo de seu contedo: Vidas secas  um dos textos mais belos e pungentes da literatura brasileira, abordando 
a trajetria penosa de uma famlia nordestina totalmente brutalizada pelo destino de fome, sofrimento e humilhao devido tanto a aridez do serto quanto L  ignorncia 
e  misria provenientes da condio social opressora em que vive.
As personagens Fabiano - vaqueiro praticamente predestinado pelas sinas semelhantes de seu pai e de seu av -, Sinh Vitria, o menino mais velho, o menino mais 
novo e a cachorra Baleia so os protagonistas de uma histria marcada pelos dramas, conflitos e sonhos que pontuam a existncia dos retirantes/refugiados/explorados 
que habitam os rinces daquela regio. O trao regionalista da obra, entretanto, no impede sua
i

VIDAS SFCAS t o VALOR DA FSI I R VS        91
universalidade, na medida em que ela versa sobre os infortnios da pobreza, da ausncia de perspectivas, da subservincia e de todas as agruras que determinam a 
saga dos que vivem  margem, independentemente do lugar (pas ou continente) onde habitam. A indetermi-nao do tempo e do espao na narrativa acentua ainda mais 
essa caracterstica. Embora o autor crie com mes-tria um panorama geral do Nordeste brasileiro, ele opta por ocultar as referncias sobre a localizao precisa -cidade, 
estado - onde o enredo se desenvolve.
Composto de treze captulos, o livro tem incio com a descrio da chegada da famlia a uma fazenda abandonada, logo aps uma viagem extenuante pela caatinga. Os 
dois adultos, as duas crianas e o cachorro surgem quase mortos de fome e de sede, completando o quadro da paisagem desoladora. Sem alternativas, acabam se instalando 
no lugar e sonhando com tempos melhores, com uma alimentao adequada, com a chuva capaz de trazer o renascimento, com um futuro diferente para os pequenos... No 
ltimo captulo, denominado "Fuga", a famlia foge para o Sul, tentando escapar do fantasma da seca para sempre. Entre os captulos 2 e 12, a famlia descobre que 
a fazenda tem um dono. Fabiano comea a trabalhar para ele. Assim, o pequeno grupo de protagonistas abandona pelo menos por um tempo a fase nmade, mas, se prestarmos 
ateno no ttulo do primeiro captulo, "Mudana", e no do lti-
il

92    | PEDAGOGIA DO AMOR
mo, "Fuga ", veremos que o crculo vicioso se mantm atavicamente nessa famlia-stmbolo de uma regio.
 nesse momento mais estvel que Fabiano, mesmo com extrema dificuldade de se comunicar e de expressar idias e sentimentos, tenta, na medida do possvel, cuidar 
da mulher, dos filhos, dos animais domsticos, da fazenda, enfim. Mas essas circunstncias so freqentemente entrecortadas pela raiva e pela revolta que o acometem 
por se saber empregado, capacho, ignorante, desprovido de ferramentas que lhe dem o mnimo de autonomia.
Esse aspecto de sua personalidade  magistralmente explorado na trama quando Fabiano tem de ir  feira da cidade fazer compras. Desconfiado, acredita que todos querem 
levar vantagem sobre ele, roubando nas contas e oferecendo produtos de m qualidade por preos exorbitantes. Nesse momento aparece o "soldado amarelo", que o convida 
para jogar cartas. Fabiano, temendo arranjar problemas com um representante do poder institudo, aceita. No fim, Fabiano perde, tenta ir embora, mas  provocado 
pelo soldado, que termina por prend-lo. Na cadeia, Fabiano apanha e passa a noite preocupado com a mulher e os filhos, que no sabem de seu paradeiro.
Na rotina da casa, Sinh Vitria passa a vida sonhando com uma cama - objeto de consumo sofisticado demais para os rendimentos parcos da famlia. Assim como

VIDAS SECAS E O VMOR D"       r!;.\\iA|    93
Fabiano, ela  incapaz de estabelecer um dilogo com os dois filhos, abortando as tentativas feitas pelas crianas com xingamentos, grunhidos e cocorotes.  o que 
ocorre^ por exemplo, quando o filho mais velho, esboando uma semente de curiosidade e de inteligncia, decide lhe perguntar o que quer dizer a palavra inferno.
O menino mais novo, por sua vez, sonha em crescer logo para poder imitar o pai, por quem nutre enorme admirao. Deseja montar a cavalo, fumar cigarro de palha, 
usar faco na cintura, tornar-se vaqueiro... O mundo adulto de um sertanejo o seduz. Entretanto, sua tentativa de aproximar-se dessa figura idealizada o faz montar 
num bode, que o derruba e o enche de coices, para seu desgosto, vergonha e deleite de seu irmo mais velho, que se diverte com a situao.
Outro exemplo da total falta de comunicao entre os membros da famlia  descrito no captulo 7, denominado "Inverno". Certa noite, como as crianas passassem frio, 
Fabiano experimenta contar histrias para que elas se distraiam. Mas ele fracassa. No consegue articular uma narrativa por absoluta ausncia de intimidade com as 
palavras, com as idias, com o dilogo. Uma vez mais, no h transmisso nem recepo de mensagem.
A cachorra Baleia parece ser a figura mais humanizada do romance:  expansiva, brincalhona e sagaz. Parceira de todas as horas. O animal chega a salvar a

94    - PEDAGOGIA O AMOR
vida da famlia quando faz uma caada bem-sucedida na mata e aparece trazendo um pre entre os dentes. Naquele momento de fome extremada, o alimento conquistado 
pela competente Baleia permite a sobrevivncia de todos.
 dramtico e comovente o captulo em que a cachorra fica doente e Fabiano tem de sacrific-la. Para a crtica especializada, essas so algumas das pginas mais 
belas da literatura de Graciliano Ramos. As percepes, vises e alucinaes da cachorra em seus minutos finais so descritas com habilidade de gnio.
Do comeo ao fim da narrativa, o fio condutor do livro  a sequido generalizada - da terra, da vida e das personagens -, confirmada pelas criaturas que povoam o 
texto e do a ele o seu carter grandioso. Mas Graciliano Ramos no as condena. Ao contrrio, absolve-as e presenteia-as com a oportunidade de um recomeo e a certeza 
de que, muitas vezes, s a esperana pode assegurar a vida e a confiana em novos amanhs. O trmino da obra representa uma nova tentativa de deixar o passado enterrado 
no solo rachado do serto e sair em busca de sementes que garantam o plantio contnuo do futuro.

VIDAS SECAS E O VALOR P\
 *  \
 95
ESPERANA: CONVITE PARA O AMANH
"O sertanejo , antes de tudo, um forte." A clebre frase de Euclides da Cunha, presente no clssico Os sertes, define, de forma magistral, os homens e as mulheres 
do Agreste brasileiro, um povo cuja sina  lutar contra a seca, a fome e a misria que assolam a regio quase inspita em que vivem, ou melhor, sobrevivem. Esse 
povo, frgil na aparncia e forte na essncia, parece j ter impregnado sua gentica herica das caractersticas imprescindveis  batalha diria a que  submetido.
Ele transmite, a cada gerao, o gene indestrutvel da esperana, da crena em dias melhores, da sede insacivel de viver, do amor incomensurvel pela terra... Um 
amor que transcende as numerosas barreiras impostas pela natureza e pela ambio desmedida de homens que h sculos tiram proveito das condies daquela regio carente 
de recursos e de compaixo. Esses coronis do sculo XXI possuem a mesma insensibilidade  dor e ao desespero alheios de seus antepassados. Essas autoridades do 
mal se gabam de tirar proveito da misria e da ingenuidade daqueles a quem deveriam servir e auxiliar.
Malabaristas da vida, esse povo subjugado vive seu dia-a-dia tentando se equilibrar no caminho tortuoso alinhavado em ziguezague pelo destino. Sua persistncia, 
sua coragem e sua f na realizao dessa travessia de forma vitoriosa constituem um exemplo para as novas
li

96    i PEDAGOGIA DO A  .
geraes. Um exemplo para todos os que se abalam sem antes lutar. Um exemplo para todos os que consideram difceis e intransponveis as barreiras de sua existncia.
Contraponto do desnimo e da apatia, o sertanejo  mesmo um forte, um obstinado que teima, resiste, agarra-se s menores possibilidades de suplantar as adversi-dades 
em sua trajetria. Os sertanejos so como magos, feiticeiros do bem, bruxos habilidosos que passam a vida inventando poes e frmulas que os preparem para a saga 
da rotina causticante de semear um futuro incerto, um futuro que parece reticente em cair do cu. Um futuro sonhado em forma de chuva que faria mais verdej antes 
os seus horizontes.
J as mulheres do serto, e mesmo as que moram na roa ou na periferia ds grandes cidades, so como sacerdotisas de uma ordem extremamente rgida, que exige lgrimas 
dirias como prova de fidelidade e devoo. Na Regio Nordeste, o ritual das lgrimas se prolonga numa espcie de comoo coletiva. As mulheres se juntam para rezar 
o rosrio e entoar cnticos, louvores e promessas feitas em unssono. E assim, gradativamente, vem o cho se molhar no com as esperadas gotas de chuva, mas com 
as lgrimas que traduzem emoo e esperana. Mulheres que trazem na face as linhas precoces de um tempo vincado. Um tempo que parece se antecipar aos anos, tamanha 
a pressa e a volpia de se instalar, de se fazer presente de forma escancarada...
1

VIDAS SECAS E o VAIOR r      TRANA-    97
Como na parbola evanglica, as mulheres vitimadas peia pobreza sonham realizar, diariamente, o milagre da multiplicao dos pes. Crdulas, rezam para que os gros 
escassos existentes na nica panela possam alimentar toda a famlia, geralmente numerosa. Vidas secas sustentadas pela esperana. Vidas secas que se mantm pela 
f. Vidas secas que fazem do cotidiano um exerccio constante de pacincia. Vidas secas que jamais se entregam.
Talvez essas caractersticas guerreiras tenham sido aprendidas e aprimoradas nas trincheiras organizadas por Antnio Conselheiro, lder popular eternizado nas pginas 
dos livros de Histria e nas do romance euclidiano. Profeta mtico que comandou a revolta do povo de Canudos contra o governo republicano.
Herdeiras ou no do exrcito do Conselheiro, a fora, a garra e a determinao dessa gente brava tm servido como exemplo e como fonte de inspirao para escritores, 
cantores, pintores, cineastas e artistas de diversas reas que, sensibilizados e apaixonados pelo tema, expem, em sua arte, o retrato particular e universal do 
Nordeste brasileiro. Assim fez o romancista Graciliano Ramos, um nordestino de corpo e alma calejado pelas dificuldades da vida no serto e, como poucos, apto a 
descrev-la de forma contundente e arrebatadora.
Mestre Graa, como era chamado pelos amigos, foi tambm um sobrevivente, um homem marcado pelo

98    j PEDAGOGIA DO AMOR
racionalismo que cultivava, l no fundo, a serpente da esperana. A esperana de transformar sua dor em obra de arte. A esperana de obter, por meio do texto, a 
redeno de seus sofrimentos. A redeno dos infortnios das suas personagens. Muitas vezes protagonista de sua literatura, no livro de memrias Infncia, de 1945, 
o autor revela: "Um dia faltou gua em casa. Tive sede e recomendaram-me pacincia".
Para manter-se firme, apesar das tristezas da vida, o pequeno sertanejo Graciliano teve de cultivar a fora interior. Menino de sade debilitada, Graciliano foi 
acometido por uma doena nos olhos que causava a inflamao das plpebras, fazendo com que permanecessem coladas. O fato retardou o ingresso do escritor na escola 
e motivou a ironia da prpria famlia. A me de Graciliano no era exceo. No raro o chamava de "cabra-cega" e "bezerro encourado", que, no linguajar tpico da 
regio, era o mesmo que "intruso".
O pai, um comerciante de modos rudes, tambm no lhe oferecia demonstraes de afeto. O dramtico conto "O cinturo" - que narra uma surra injusta do menino Graciliano 
devido ao suposto desaparecimento de um cinturo do pai, que, mesmo depois de ter percebido seu engano, no pediu desculpas ao filho - nos d uma mostra de como 
foi dura a infncia do autor de Vidas secas.
Nada disso, entretanto, foi suficiente para inibir a genialidade do escritor, aflorada quando se aproxima-

Vir
E O VALOR
99
va ds adolescncia, com o auxlio de professores e amidos mentores. O resultado  que o Brasil e o mundo ganharam um escritor mpar, especialista na arte de cap-ur 
a essncia de seus semelhantes, dando-lhes vida atravs de sua pena. Nada escapava  observao de mestre Graa. Em Vidas secas, sua prosa precisa, limpa e extremamente 
habilidosa nos revela um mundo trrido, escaldante, repleto de ossadas, de audes secos e, acima de tudo, de personagens esperanosos... Protagonistas que partem 
errantes  procura de paisagens e chuvas que lhes concedam o direito de sonhar, de prosseguir... So Fabianos, sinhs Vitrias e Baleias vidos pelo verde, pelo 
gado gordo, pela plantao, pelo barulho da chuva, pelo inverno salvador.
Em cada linha desse romance - o mais conhecido do autor - surge a esperana explcita que alimenta e vai postergando a morte dos retirantes famintos e sedentos descritos 
na obra. As vidas secas descritas por Graciliano nos deixam ansiosos por paisagens verdej antes, floridas, emolduradas por arco-ris e impregnadas pelo cheiro de 
terra molhada. Sinais de renovao da vida, de renascimento, de esperana...  a contribuio do artista para o mundo mesmo que, para isso, ele tenha se debruado 
sobre realidades marcadas pelo contraponto dessa paisagem revitalizadora.
Na poca em que vivemos, cada vez mais  preciso semear esperana, sob pena de nos tornarmos ridos,

100   PEDAGOGIA DO AMOR
duros e ressequidos como o cho e como algumas almas descritas nas obras de Graciliano. Sem esperana, torna-se invivel viver, como bem esclarece a belssima explicao 
mitolgica extrada do mito de Pandora. Recordemos que, de acordo com a narrativa fabulosa, a curiosidade de Pandora - mulher criada pelos deuses, portadora de rara 
beleza e numerosos dons - fez com que ela abrisse uma caixa destinada a Prometeu, de onde escaparam todos os males da humanidade. O que nos salva  que, entre eles, 
para servir de ponto de equilbrio, estava tambm algo positivo, a esperana. Graas a ela, os homens conseguem enfrentar qualquer calamidade, sem desistir de viver.
No mundo todo, muitos pases esto, neste momento, experimentando o horror provocado por guerras, intolerncia, conflitos tnicos, sociais, religiosos e culturais. 
Outros vivem um tipo de guerra civil no declarada, mas real e assustadora: a guerra da violncia, da impunidade, da desonestidade, da falta de tica, da ausncia 
total de respeito e de amor ao prximo.
Na Histria, no faltam exemplos de atos cruis que envergonham a raa humana. Atos contra a prpria natureza que nos sustenta e contra a espcie a que pertencemos. 
Irmos contra irmos em pelejas que se arrastam e se renovam desde os tempos mais remotos. Contra tudo isso e a favor de ns mesmos, a esperana tem sido o escudo, 
o antdoto e a poo mgica que nos impulsio
i 1

VIDAS SECAS E O VALOR n-\
101
na adiante como prova de que a vida ainda  o bem maior da humanidade.
Os seres humanos trazem consigo o gene da esperana. Uma esperana que transborda e se multiplica num movimento interno e intenso. A desejada terra prometida... 
A lida dos imigrantes agricultores que, em todas as partes do mundo, semearam o presente de esperanas para colher um futuro de bem-aventuranas... A esperana dos 
imigrantes vendedores de armarinhos... A esperana dos que compartilharam sorrisos, lgrimas, acenos, anseios, expectativas e temores no momento de deixar a terra 
natal em navios que conduziam  busca do algo mais... O adeus, o corao partido, os olhos marejados que viam a terra, o porto, os amigos, os amores e os familiares 
cada vez mais distantes... Sentimentos gigantescos acumulando-se enquanto os entes queridos se reduziam a pequenos pontos fixos no cais... A garganta apertada e 
a dor pungente da separao comprimindo o peito de milhes de desbravadores de terras e de reinos. Lutadores idealistas que acreditavam em uma causa. Aventureiros 
indispensveis  construo de novos mundos, novas realidades.
Eis a lio. A Histria nos ensina que a esperana segue cada passo dado pelo ser humano, mantendo com e"e uma relao fraterna e perene.  assim que tem de Ser: 
v'da e esperana, companheiras de jornada.
A juventude cabe dar prosseguimento ao sonho de

102    PIOAGOGLA DO AMOR
construir novas realidades, novos castelos, novas edificaes que assegurem o futuro. Graas  fora renovadora que brota dos coraes dos jovens de corpo e esprito, 
temos suportado todas as mazelas, dores e sofrimentos, Temos escolhido levantar a cabea e olhar para a frente.  quando vislumbramos uma sada, um amanh melhor 
do que hoje. Um outro tempo que poder suplantar as aflies provocadas pelo desamor e pela descrena. Novos horizontes onde poderemos encontrar solos frteis. Solos 
promissores que, talvez um dia, no permitam mais a existncia dessas vidas secas.

HRCULES E O VALOR DO TRABALHO
I

O gnio  um por cento de inspirao e noventa e nove
por cento de transpirao.
Thomas A. Edison

ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
A palavra trabalho deriva do verbo trabalhar, originrio do vocbulo romnico tripaliare. Este, por sua vez, vem do latim tripalium, nome de um antigo e terrvel 
instrumento de tortura. Feitas essas primeiras consideraes, poderamos concluir que essa definio d ao trabalho uma conotao estritamente pejorativa. Entretanto, 
 fato que a Histria j nos mostrou quanto a natural evoluo dos idiomas no decorrer dos sculos acaba por alterar de maneira significativa nossa compreenso dos 
conceitos mais diversos.  o caso do termo trabalho.
Prova disso  que se torna quase impossvel imaginar a vida sem o exerccio constante do aperfeioamento emocional e intelectual que o trabalho proporciona aos indivduos. 
Mais do que uma atividade

10b
 no AMOR
cotidiana que possibilita a sobrevivncia das pessoas, o trabalho , antes de tudo, um instrumento de crs cimento, uma ferramenta que nos permite abrir as portas 
para os nossos sonhos, desejos e ideais.
O Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa traz numerosas significaes do termo trabalho, dentre as quais destacamos: "esforo incomum; luta, lida, faina; conjunto 
de atividades, produtivas ou criativas, que o homem exerce para atingir determinado fim; atividade profissional regular, remunerada ou assalariada; exerccio efetivo 
dessa atividade; local onde  exercida tal atividade; cuidado ou esmero empregado na feitura de uma obra; qualquer obra realizada (manual, artstica, intelectual 
etc); empreendimento, realizao; qualidade de execuo, feitura, lvor; ao ou modo de executar uma tarefa, de manejar um instrumento; tarefa a cumprir; servio; 
conjunto de exerccios que se destinam ao treinamento, desenvolvimento e aprimoramento fsico, artstico, intelectual etc; aquilo que  ou se tornou uma obrigao 
ou responsabilidade de algum; dever, encargo; ao progressiva e contnua exercida por elemento natural, e o efeito dessa ao: resultado til do funcionamento 
de um aparelho, um maquinismo, um sistema; atividade humana que, com o auxlio ou no de mquinas, se caracteriza como fator essencial da produo de bens e servios; 
conjunto dos trabalhadores que participam da vida econmica de

*                         HFRCULFS E O VALOR no TRAMIHP   107
um pas; no hegeltanismo, processo por meio do qual o esprito humano, ao colocar nos objetos externos todas as suas potencialidades subjetivas, descobre e desenvolve 
plenamente a sua prpria realidade; no marxismo, atividade consciente e plane] ada na qual o ser humano, ao mesmo tempo que extrai da natureza os bens capazes de 
satisfazer suas necessidades materiais, cria as bases de sua realidade sociocultural".
Todo esse rol de acepes aponta para o fato de que o trabalho possui estreita conexo com o processo evolutivo dos seres humanos na medida em que simboliza o extremo 
oposto do comodismo, da passividade, da preguia, da negligncia, do desleixo. Muito pelo contrrio, a natureza do trabalho costuma impor aos seus praticantes doses 
macias de ritmo, de dinamismo, de agilidade e de motivao, capacitando-os para as provaes e os desafios inerentes  condio humana.
Em outras palavras, o trabalho oferece ao ser humano os mecanismos de efetivao de sua liberdade de ao e pensamento. Sobre essa associao entre trabalho e liberdade, 
o filsofo dinamarqus Soren Kierkegaard afirmou: "O dever de trabalhar para viver exprime o universal humano, inclusive no sentido de ser uma manifestao da liberdade. 
 exatamente por meio do trabalho que o homem se torna livre; o trabalho domina a natureza: com o trabalho ele mostra que est acima da natureza"3.


108 i PEDAGOGIA DO AMOR
PARA RECORDAR A HISTRIA: A ESCOLHA DE HRCULES
As histrias protagonizadas por criaturas mticas como deuses, semideuses, espritos e demais seres fantsticos que povoam as narrativas da literatura greco-romana 
foram, durante sculos, transmitidas oralmente por geraes sucessivas, tendo sido registradas de forma impressa muito tempo depois de sua origem propriamente dita. 
No h, portanto, relatos precisos a respeito da autoria dessas lendas e desses contos maravilhosos repletos de ensinamentos e de relatos ficcionais encantadores 
que, alm de belos, nos revelam conhecimentos indispensveis  aventura da vida.
Assim  com o mito de Hrcules. Atentemos para as preciosas lies contidas na sua difcil escolha. Certo dia, o jovem Hrcules, filho de Zeus e de Alcmena, caminhava 
pensativo sem saber que rumo daria a sua vida. Recebera excelente educao de sua me e de seu padrasto, que se chamava Anfitrio. Quando beb, Hrcules esmagou 
com as prprias mos duas serpentes que entraram em seu bero e enrolaram-se em seu pescoo. Os rpteis foram enviados pela deusa Hera, esposa de Zeus, que odiava 
sua rival, Alcmena. Percebendo que o menino era especial, sen Padrasto e sua me cuidaram por que recebesse ensinamentos valiosos sobre as artes da gucna, da msica, 
da escrita e da educao fsica.

Hf.RCUt.iJ l  O VALOR DO    l         ' u >'   109
Assim, aos 18 anos, era o jovem mais forte e mais Mo da Grcia.
Durante a sua caminhada, Hrcules aproveitava para refletir sobre sua vida e sua existncia, repleta de trabalhos e deveres. Tinha a impresso de carregar o mundo 
nas costas. Parecia no compreender sua misso. Estava triste, amargo, confuso. Mergulhado no caos interior de suas idias e sentimentos, Hrcules no dispunha da 
harmonia necessria para viver, uma vez que no estava em sintonia com seu talento pessoal, suas habilidades e seus projetos futuros. Diferentemente dos outros jovens, 
que costumavam levar uma vida de prazeres diversos, sem preocupaes, Hrcules possua numerosas responsabilidades e tarefas a cumprir, todas muito trabalhosas. 
Sem compreend-las inteiramente, ele vivia sobrecarregado de si mesmo.
Enquanto pensava em tudo isso, nosso jovem protagonista deparou com uma estrada bifurcada, de modo que no soube que caminho deveria seguir desse ponto em diante. 
As opes eram realmente muito distintas. Do lado direito, havia um terreno muito acidentado e montanhoso a transpor. A estrada era desprovida de qualquer atrativo, 
mas, no final, conduzia diretamente s montanhas azuis que indicavam a continuidade do trajeto. J do lado esquerdo, a paisagem no poderia ser melhor: muitos pssaros 
cantando, rvores frondosas de ambos os lados, ausncia de pedras, troncos e matas

110  i PEDAGOGIA DO AMOR
que poderiam dificultar a jornada. Mas havia um seno nesse cenrio buclico: uma neblina densa ao longe impedia Hrcules de visualizar o que viria depois. O caminho, 
ao que parecia, no levava a lugar nenhum. Foi quando, de repente, duas belas mulheres surgiram nas respectivas estradas que se apresentavam  frente do jovem Hrcules. 
A primeira delas vinha do caminho da esquerda, aquele cujas caractersticas eram, aparentemente, mais tranqilas e sedutoras aos olhos do viajante. A moa era belssima 
e extremamente hbil na escolha das palavras. Seu discurso, ao narrar as maravilhas do caminho oferecido por ela, era, por assim dizer, doce e ao mesmo tempo persuasivo.
Hrcules ouviu promessas maravilhosas de uma vida repleta de fortunas, bem-aventuranas e prazeres variados caso se deixasse guiar pela anfitri envolvente. A moa 
convidou-o a seguir pelo caminho mais fcil, oferecendo-lhe uma vida sem problemas, obstculos e tristezas de qualquer espcie. Muito vinho, muita msica, muitas 
festas e alegrias compunham o roteiro de divertimentos e satisfaes sucessivas ofertado pela bela jovem proveniente do caminho das rvores, dos pssaros e das flores. 
Um convite tentador.
Logo em seguida, a segunda moa - to bela quanto a primeira - aproximou-se de Hrcules, deixando claro, desde o princpio, as reais condies que o seu caminho 
- a estrada da direita - tinha a lhe oferecer. A moa

H FRCUI FS E O VALOR DO TRAR
111
traou um panorama bem diferente daquele exposto por sua antecessora. Para comear, ela no prometeu nenhuma regalia, nenhuma fortuna e nenhum benefcio -a no ser 
os que Hrcules conquistasse com a prpria fora e empenho. Alm disso, descreveu sua estrada como um itinerrio difcil de ser transposto, com muitos pntanos e 
morros. A subida era ngreme, embora a vista do alto pudesse realmente valer o sacrifcio. Apesar dessa descrio  primeira vista desmotivadora, havia uma vantagem 
de peso em relao  primeira estrada: no final, esse caminho acidentado e complexo levava s montanhas azuis, que garantiriam fama a todas as pessoas que decidissem 
enfrentar o desafio de alcan-las. Uma fama adquirida apenas por aqueles que trabalhassem e se esforassem diariamente.
Ao perguntar o nome dessa jovem, que estampava pureza e sinceridade na face, Hrcules obteve a seguinte resposta: "Meu nome  Trabalho, embora muitos me conheam 
como Virtude". Da mesma forma, Hrcules questionou o nome da primeira mulher que se apresentara a ele. Ento, ouviu-a dizer: "Meus amigos me chamam de Bem-Aventurana; 
meus inimigos, para me depreciar, me chamam de Preguia".
Hrcules escolheu a Virtude como guia porque compreendeu que a verdadeira riqueza - a que realmente tem valor - deve provir do trabalho honesto, do esfor-o prprio 
e da dedicao constante. Assim, segurou a

112   i PEDAGOGIA, DO AMOR
mo da Virtude e se deixou conduzir por um caminho cheio de dificuldades,  verdade, mas farto de possibilidades e de vitrias no trmino do seu percurso.
TRABALHO: UMA VIRTUDE ESSENCIAL
A histria do jovem Hrcules  repleta de simbologias sobre as opes que a vida nos concede ao longo de nossa trajetria por diversos caminhos bifurcados. Da mesma 
forma que ocorre na narrativa de A escolha de Hrcules, quando somos jovens nos  dada a oportunidade de selecionar as trilhas que vo culminar num futuro construdo 
sobre os pilares do sucesso ou do fracasso, dependendo do percurso que elegemos seguir.
Muitas vezes nos identificamos com o heri dessa histria na medida em que percebemos suas dvidas, seus anseios, suas angstias e sua revolta natural, presentes 
no incio do texto. At porque quantas vezes no nos sentimos abandonados pela sorte? Quantas vezes nos queixamos da falta de reconhecimento do nosso trabalho, da 
ausncia de liberdade, das numerosas responsabilidades que somos levados a assumir, dos riscos que corremos em nome de coisas com as quais no temos muita afinidade 
ou cuja relevncia no compreendemos imediatamente?

HRCULFS F O VALOR DO TRABALHO1    113
Nessa parte da histria, Hrcules parece ser uma cpia fidedigna da maioria das pessoas que constituem a sociedade contempornea. Seus dramas e questionamentos existenciais 
assemelham-se aos sentimentos que refletem diretamente a dinmica muitas vezes cruel de nosso tempo. A presso social, as exigncias profissionais, o culto ao corpo, 
o trnsito, a escassez de tempo para o lazer e para a famlia, a ausncia de perspectivas, a dificuldade nos relacionamentos, o preconceito e a criminalidade acarretam 
nveis elevados de estresse e de doenas causadas por ele. ndices alarmantes que, cada vez mais, intrigam pesquisadores, cientistas, mdicos e estudiosos do comportamento 
humano. Muitos se tm debruado sobre esse tema, visando encontrar a soluo para um mal que atinge milhes de pessoas em todo o mundo.
Quase setenta anos depois de sua produo, o filme Tempos modernos (1936), de Charles Chaplin, continua perfeito para ilustrar a realidade atual. Muitos trabalhadores 
ainda so refns das mquinas. So avidamente digeridos pela rapidez desumana e mecanicista imposta pela escala de produo. A dedicao diria dos funcionrios, 
as horas extras de trabalho pesado, a concentrao exigida para executar determinadas funes... Todo esse esforo, muitas vezes, no  recompensado. No h contrapartida 
por parte dos empregadores. A falta de viso de muitos empresrios no permite que percebam a baixa remunerao, a desvalo-

114   : PEDAGOGIA DO AMOR.
rizao do profissional e a coisiicao do ser humano como fatores prejudiciais ao seu negcio. Fatores que no colaboram em nada para o aumento de produtividade 
das empresas. Poucas so as organizaes cujos proprietrios se preocupam verdadeiramente com o bem-estar de seus colaboradores diretos. As excees existem,  fato, 
mas ainda compem uma minoria.
Independentemente da rea de atuao, as pessoas querem aprender, crescer, desenvolver suas aptides e habilidades, obter reconhecimento e recompensas  altura de 
suas qualificaes, de seus esforos. Entre superiores e subordinados deve existir uma relao de mestre e de aprendiz. Uma relao de educador e de educando. O 
verdadeiro lder precisa transmitir saberes, compartilhar conhecimentos e agregar foras em torno de objetivos comuns.
Os nmeros divulgados por publicaes especializadas comprovam: as melhores empresas, aquelas que, ano aps ano, superam suas metas, batem recordes de produo e 
apresentam as melhores idias e solues para as necessidades do mercado, so as mesmas que desenvolvem programas e aes de estmulo a seus funcionrios.
Capacitao contnua, reconhecimento, promoes e prmios para os que se destacam, participao nos lucros, envolvimento com a comunidade por meio de projetos e 
aes de carter social, investimento em salas de ginstica e jogos e promoo de campeonatos inter-

HFR.CUIF5 f O VAIOR DO Tt ABAI HO1    115
nos, gincanas, passeios e atividades culturais em grupo para a integrao e o bem-estar da equipe so prticas eficazes, geralmente de baixo custo, que fazem toda 
a diferena no universo do mundo corporativo. E mais: a educao do lder, a gentileza, a conscincia de que o poder  nobre e , sobretudo, til quando significa 
poder servir.
O oposto disso acarreta a insatisfao generalizada dos funcionrios, o bloqueio criativo e,  claro, no contribui em nada para o sucesso dos empreendimentos organizacionais. 
O excesso de deveres e a ausncia de tempo para aproveitar as belezas da vida e os aprendizados do caminho sufocam as pessoas e, no raro, desencadeiam as sensaes 
de angstia e opresso descritas pelo jovem Hrcules.
Entretanto,  medida que a histria avana, vamos nos dando conta da grandeza existente no ato de aplicar nossas foras e faculdades na realizao de determinados 
fins. Vamos adquirindo a conscincia de que nossas ocupaes e os desafios delas provenientes so uma espcie de passaporte que nos garante a viagem rumo  respeitabilidade, 
 dignidade,  autoconfiana,  segurana, ao desenvolvimento emocional e intelectual e ao aprimoramento de nossos dons naturais.
Por isso  importante refletir sobre a relevncia de exercer uma atividade de forma responsvel, atenta, dedicada e comprometida com os resultados. Indepen-

f "*
116  ; PEDAGOGIA no AMOR.
dentemente do ofcio que escolhemos ou que nos coube exercer pelos mais variados motivos, temos de enxerg-lo como algo honrado e nobre justamente por ser imprescindvel 
para a continuidade do jogo social.
Precisamos do trabalho uns dos outros para que possamos levar uma vida minimamente harmnica, segura e feliz. O bem-estar coletivo depende da colaborao de todos 
os profissionais, uma vez que necessitamos de servios diversos durante nossa vida. Tomemos como exemplo uma simples refeio. Quantos trabalhadores so direta e 
indiretamente envolvidos at o alimento chegar  nossa mesa? Num primeiro momento, poderamos mencionar o agricultor, o motorista que transporta os alimentos do 
campo para a cidade, o distribuidor, o vendedor. Esses trabalhadores constituem apenas um pequeno grupo dentre as pessoas envolvidas na satisfao de nossas necessidades 
dirias mais prementes de sobrevivncia e bem-estar. No  difcil compreender que todas elas exercem funes essenciais  sociedade.
Alm das necessidades bsicas de sobrevivncia, a realizao dos nossos sonhos tambm est, muitas vezes, diretamente ligada ao trabalho. Talvez por isso seja difcil 
compreender o motivo que leva as pessoas a se perder no meio do caminho de sua misso.  o caso do mdico insensvel e carrancudo que mal olha para o paciente, mas 
um dia foi um estudante idealista, um jovem cheio de sonhos que muito provavelmente se emocionou na

HRCUIFS E O VAIOR no I
 117
formatura ao repetir, com toda a turma, o juramento de Hipcrates.  o caso daquele professor frio, entediado e insensvel s necessidades e carncias dos alunos. 
E o caso do juiz arrogante, mais preocupado com o prestgio da profisso que com as atividades que deve cumprir. A rotina, os problemas do dia-a-dia, as iluses, 
os desejos no concretizados... O que teria fora suficiente para destruir um sonho? O trabalho tem de ser prazeroso, tem de ser um desafio constante, tem de ser 
um misto de grande responsabilidade e enorme entusiasmo.
 verdade que, muitas vezes, o trabalho exige muito de ns, a ponto de nos causar dores, cansao e esgotamento fsico e mental. Sentimo-nos extenuados devido s 
dificuldades enfrentadas na realizao de algumas tarefas, mas temos de admitir ser gratificante v-las devidamente concludas. A sensao de realizao  verdadeiramente 
merecida, pois foi conquistada com nosso suor. Sobre essa sensao afirma o escritor Daniel Defoe em seu livro Robinson Cruso: "Mas quem se rende a dores tendo 
a libertao em vista?".
As novas geraes tm de estar atentas s mltiplas e necessrias faces e aos benefcios provenientes do trabalho.  por meio do trabalho que o ser humano  levado 
a concretizar a unio entre a teoria e a prtica, proporcionando a plenitude de sua educao e aprendizado. Uma educao voltada tanto para o indivduo quanto para 
a coletividade, uma vez que o homem colabora

118  | PEDAGOGIA DO AMOR
para suprir no s suas necessidades mas tambm as de um enorme contingente de pessoas.
O trabalho nos torna seres sociais na medida em que, no exerccio de nossa profisso, entramos em contato com outros indivduos e, pouco a pouco, aprendemos a estabelecer 
relaes com pessoas diferentes, com idias e opinies muitas vezes divergentes das nossas. Pessoas de origens diversas, com costumes e histrias variados que nos 
enriquecem social e culturalmente. Essa aproximao com o outro  fundamental para o nosso crescimento intelectual, bem como para a solidificao de nosso carter. 
Em outras palavras, o trabalho nos ensina e fortalece em ns valores indispensveis como ti* ca, justia e respeito s diferenas.
Tudo isso j seria suficiente para demonstrar a importncia do trabalho em nossa vida, afastando a possibilidade de encar-lo como uma obrigao tediosa e ma-ante, 
um suplcio capaz de causar em quem o desenvolve ama sensao de explorao e de escravido.  mister salientar que condies como essas no so determinadas pelo 
trabalho em si, e sim pelos meios equivocados e desumanos de utilizao da mo-de-obra na escala de produo. Hoje, em pleno sculo XXI, infelizmente ainda vemos 
acontecer situaes como essas, ocasionando uma averso - nesse caso - natural atribuda ao trabalho.
Entretanto,  nosso dever alertai os aprendizes de hoje soore o nosso compromisso social de utilizar todas as

HRCWlFS F O V.MOR 11(1 TRA!-M
ferramentas possveis para mudar esse quadro, inaugurando um tempo em que todos podero ter a educao necessria, que garantir aos brasileiros e a todos os cidados 
do mundo a capacidade de exercer trabalhos dignos, que dem prazer e faam as pessoas sentir-se honradas e orgulhosas por execut-los. Essa ser, sem dvida, uma 
contribuio para o progresso social e para o estreitamento das relaes entre as pessoas e, mais do que isso, o comeo de uma nova histria. Um tempo em que o trabalho 
possa ser - como sempre deveria ter sido - associado ao prazer e  alegria.
 maravilhosa a sensao de dever cumprido quando conclumos a obra de um dia ou de uma vida usando as prprias mos, o intelecto, as aptides. O escritor que termina 
um livro, o poeta que finaliza um poema, o pintor que arremata um quadro, o mecnico que acaba um conserto, o engenheiro que entrega uma planta ao cliente, o pedreiro 
que finda uma construo - todos so geniais em sua capacidade de transformao.
Nesse contexto, a tristeza de quem no tem trabalho  um dos maiores dramas do mundo de hoje. Da a necessidade de polticas pblicas voltadas para a criao de 
empregos e a distribuio de renda. O povo no precisa de esmola. Quer dignidade. Trabalho  dignidade. jO jovem cheio de garra e de vontade de aprender, o homem 
e a mulher maduros e experientes - todos tm necessidade de se expressar por meio de sua vocao. O

120 j PEDAGOGIA DO AMOR
trabalho capacita para a vida, e como tal deve ser encarado como essencial e imprescindvel  manuteno dos ideais humanos. Que todos tenhamos a oportunidade de 
atuar naquilo que nos faz felizes de modo que possamos, assim, colaborar para a felicidade daqueles que esto em nossa volta.

ClNDERELA E O VALOR DA HUMILDADE

No te impressiona saber que o mais annimo dos tomo* tem poder capaz de arrasar cidades?
No entanto repara como se apagam e se escondem como se nada fossem, nada valessem, nada pudessem...
Dom Hlder Cmara

ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
O vocbulo humildade vem do latim humilitas, que significa "pouca elevao, pequena estatura". Em sentido figurado, quer dizer condio baixa, abatimento, sentimentos 
humildes, modstia. Os registros histricos de sua etimologia revelam que a palavra j foi grafada como omildade e umildade. O Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa 
traz as seguintes designaes do termo: "qualidade de humilde; virtude caracterizada pela conscincia das prprias limitaes; modstia, simplicidade; sentimento 
de fraqueza, de inferioridade com relao a algum ou a algo; reverncia ou respeito para com superiores; acatamento, deferncia, submisso; falta de luxo, de brilho; 
simplicidade, sobriedade; condio do que  desfavorecido economicamente; pobreza, penria".

124    Pi i\u;i\'.i.\ no AMOR
As acepes utilizadas para o termo humildade preconizam um estado de esprito desprovido de seus contrapontos, dentre os quais podemos destacar a vaidade, o orgulho 
exacerbado - utilizado de forma pejorativa -, o sentimento de superioridade, a arrogncia, a soberba, a prepotncia, a insolncia, o desprezo pelos feitos, valores, 
atitudes e mritos alheios e a ausncia de modstia.
Nesse sentido, a humildade surge como um elixir capaz de imunizar seu portador contra uma srie de mazelas, ocasionadas pela insensatez, pela ignorncia, pela escassez 
de valores nobilitantes que tm acometido parcelas significativas da sociedade. Na poca em que vivemos, a humildade  uma virtude fundamental para a vida erri comunidade 
justamente porque possibilita a aproximao entre as pessoas, no importando se pertencem a raas, credos e classes sociais diferentes nem se comungam convices 
ideolgicas opostas. A humildade permite que o indivduo enxergue os prprios defeitos, problemas, limitaes e posturas, atitude que, aos poucos, vai abrindo caminho 
para a tolerncia, a pacincia e o perdo em relao s imperfeies e escolhas alheias.
Na filosofia, o conceito de humildade foi amplamente debatido, ocasionando divergncias em relao  sua significao. Mas, independentemente do ponto de vista relativo 
ao termo, parece ser clara a

Cl^PFRFI.A E O VALOR DA H'         tHDf .   125
assertiva de que o mundo de hoje carece da humildade descrita por So Toms de Aquino quando disse que essa virtude "tempera e freia o nimo a fim de que ele no 
tenda desmesuradamente s coisas mais altas", ao mesmo tempo que "fortalece o nimo contra o desespero e impele-o a perseguir as grandes coisas". J para o filsofo 
Hegel, a humildade " a conscincia de Deus e de sua essncia como amor".
PARA RECORDAR A HISTRIA: CINDERELA
A histria da jovem Cinderela  bem antiga, tendo sido registrada na China, mais precisamente no sculo IX. A possvel origem oriental - no obrigatoriamente chinesa 
- desse conto  fundamentada nas referncias ao tamanho e  delicadeza do p feminino, tido como smbolo de beleza e de virtude, e  utilizao de materiais nobres 
na confeco dos calados. Bruno Bettelheim, renomado psiclogo infantil e estudioso dos contos de fadas, lembra que h registros relativos a produo de chinelos 
artisticamente trabalhados com materiais preciosos j no Egito do sculo III.
No Ocidente, o conto Cinderela foi divulgado pelo francs Charles Perrault (1628-1703), um personagem impar na histria da literatura infantil justamente por-

t   r
126 ' PFDAGOGA no AMOR
I i
que foi o responsvel por imprimir, com ineditismo, uma srie de contos tradicionais fantsticos at ento transmitidos apenas oralmente, de gerao em gerao. 
Dentre eles, destacam-se A bela adormecida e Chapeuzinho Vermelho.
Cinderela, tambm conhecida como Gata Borralheira (porque uma de suas tarefas era limpar as chamins e a lareira, sujando por isso todo o seu vestido de borra-lho), 
exerce um fascnio incontestvel em crianas e adultos de todo o mundo. A trajetria de sojt imentos da bela moa de corao puro que, sendo rf de me, era explorada 
de maneira desumana pela madrasta e pelas suas duas filhas ms, continua seduzindo geraes, certamente, pela enorme carga de valores positivos que a trama agrega 
em seu enredo. Lembremos que, apesar das dificuldades, das provocaes sofridas e do cansao dirio pelo servio pesado que era obrigada a fazer, a jovem continuava 
pura de corao, doce, meiga e delicada com todos. Nada conseguia abalar a fortaleza de seu carter.
Certo dia, no reino onde vivia a moa, correu a notcia de que o rei promoveria um baile com o intuito de que seu filho escolhesse uma jovem para se casar. Todas 
as pessoas importantes do reino receberam convites. As duas filhas da madrasta de Cinderela, felicssimas com o evento, s pensavam na festa. Tinham de escolher 
os vestidos, os penteados, os perfumes, o estilo da maquia-

ClNDFRFLA F O VALOR D         \mnADF     127
gem etc. A empolgao era justificada: ambas sonhavam conquistar o corao do prncipe. Cinderela auxiliava em tudo o que podia, at mesmo dando conselhos sobre 
roupas e acessrios. Mesmo assim, as malvadas moas no se lembravam de lhe agradecer e, bem ao contrrio, zombavam de Cinderela dizendo que ela nunca poderia ir 
ao baile.
O tempo foi passando e, finalmente, o dia da festa mais esperada do reino chegou. A pobre Cinderela teve de assistir ao rebulio da madrasta e de suas filhas durante 
todo o dia. Na hora prevista, elas partiram numa carruagem em direo ao palcio, deixando a borralheira sozinha em casa, aos prantos.
Foi quando, chorando, sentada perto da lareira, a bela moa viu aparecer diante de si uma linda fada, que afirmou ser sua madrinha. Vendo a menina to triste e maltrapilha, 
a fada tratou de informar-lhe que viera justamente para providenciar sua ida ao baile. Todo o resto aconteceu num passe de mgica. No jardim da casa a fada, com 
a varinha mgica, transformou uma abbora numa linda carruagem dourada e seis camundongos em imponentes cavalos. Escolheu ainda um rato de bigode finssimo para 
servir de cocheiro e transformou seis lagartos em lacaios elegantemente vestidos.
Depois de providenciar a melhor conduo e os melhores serviais para cuidar da moa, chegou a vez de dar a ela ares de princesa. Com apenas um toque de sua

128 ' PFDAGOGIA no AMOR                   >
varinha encantada, os farrapos tornaram-se um belssimo vestido de ouro e prata, bordado com pedras preciosas. Em seguida, a fada madrinha lhe deu um par de sapatinhos 
de cristal e, por ltimo, fez uma nica recomendao a Cinderela: " preciso que voc volte para casa  meia-noite, pois o encanto terminar quando o relgio der 
o ltimo toque anunciando o incio de um novo dia".
Ao chegar ao castelo, Cinderela comoveu a todos com sua beleza. O filho do rei imediatamente pensou ser a jovem uma princesa desconhecida e apressou-se a dar-lhe 
as boas-vindas. Danaram juntos todo o tempo. Ela estava to entusiasmada e to absorvida com o prncipe e com aquela atmosfera de sonho que esqueceu completamente 
a recomendao da fada a respeito do horrio. Foi ento que o relgio do palcio comeou a soar os doze toques noturnos. Lembrando-se de tudo num relance, a moa 
fugiu correndo do salo e, na confuso, deixou cair um de seus elegantes sapatinhos de cristal.
Cinderela chegou em casa exausta, novamente vestida de tropos, sem lacaios, carruagem nem cocheiro. S restara o outro sapatinho de cristal. Ao entrar em casa, sem 
desconfiar que Cinderela era a princesa desconhecida, a madrasta e as filhas contaram tudo sobre a festa, inclusive que o prncipe pegara o sapatinho e suspirara 
entristecido por aquela moa, por quem parecia apaixonado.

I ClNDRELA E O VMOR fu  HUMILDADE
 129
Pouco tempo depois, o filho do rei anunciou publica-h 'ente que se casaria com a moa em cujo p o sapatinho servisse. Convocou auxiliares para percorrer todo o 
reino, ordenando que entrassem nas casas e experimentassem o sapatinho nas moas. No tardou para que um mensageiro chegasse a casa de Cinderela trazendo o delicado 
calado de cristal. Afoitas, as duas irms tentaram de todas as formas cal-lo, mas ele no serviu.
O mensageiro perguntou ento se no havia outra moa na casa. Cheia de coragem, Cinderela se apresentou. As irms riram da ousadia da borralheira, mas o mensageiro, 
que recebera ordens expressas para que todas as moas do reino calassem o sapatinho, insistiu. E, para surpresa de todos, o calado entrou no pe-zinho de Cinderela 
sem que a moa precisasse fazer nenhum esforo.
Para maior espanto de todos, Cinderela tirou o outro sapatinho de cristal do bolso, calando-o. Imediatamente, a madrasta e suas duas filhas reconheceram em Cinderela 
a linda princesa do baile e caram de joelhos implorando seu perdo pelo sofrimento que lhe tinham causado.
Como Cinderela era incapaz de nutrir qualquer sentimento negativo, como dio, rancor ou raiva, abra-ou-as e disse que as perdoava de todo o corao. Com humildade 
e nobreza de esprito, ela foi conduzida  presena do prncipe, que aguardava ansioso sua ines-

f
130   PEDAGOGIA DO AMOR.
quecvel amada. Celebrando seu amor por todo o reino, dias depois casaram-se e viveram felizes para sempre.
HUMILDADE: BLSAMO PARA A ALMA
Falar dos ensinamentos transmitidos por Cinderela significa fazer uma reverncia aos contos de fadas, histrias que nos tocam profundamente e conquistam nosso corao 
de forma arrebatadora. Geralmente, essa seduo coletiva e deliciosa ocorre muito cedo, quando ainda vivemos no perodo mais ensolarado e significativo de nossas 
vidas: a infncia.  nele que deparamos com as experincias, as fantasias, as comdias e os dramas que vo moldar nossa personalidade, nosso carter, nosso jeito 
de ver e de viver o mundo. Histrias como a de Cinderela so parte integrante desse processo de aprendizado, dessa aventura infantil que nos leva ao crescimento 
e ao amadurecimento.
So narrativas impregnadas de vida. Repletas de um perfume complexo que traz em si um misto de essncias doces, ctricas, exticas... Nelas encontramos muito de 
ns mesmos... Nelas nos vemos refletidos com nitidez. So histrias que decifram a alma humana e expem o inconsciente coletivo  sua fotografia mais perfeita e 
colorida. Assim so os contos de fadas. Viagens imagi-

ClNnERELA E O VAl.i-
MiWHiH       131
nrias que deixam em ns marcas profundas, feitas por um tipo de ferrete poderoso, mas ambivalente, porque traz, lado a lado, as insgnias da tristeza e da alegria.
Muitas dessas marcas so fixada^, no corao, ao passo que outras em nossa mente. Iodas, entretanto, permanecem para sempre como tatuagens que definem o esprito 
de quem as possui de acordo com os traos, as linhas e o estilo dos seus desenhos. Marcas que nos guiam porque exercem sobre ns uma espcie de domnio invencvel, 
imposto por nossas razes e nossas emoes mais intensas.
Cinderela - ao lado de tantos outros contos inesquecveis -  uma dessas lembranas (marcas, registros) indelveis, eternizadas por uma misteriosa juno de fatores. 
Entre eles, a capacidade de dar aos seres humanos os recursos para poder sonhar. Sua trama comovente nos faz chorar, rir, sofrer, amar. Vivenciamos sensaes e sentimentos 
diametralmente opostos que nos habilitam, por meio da reflexo proveniente da fico,  ampliao de nossos horizontes, nossas perspectivas, nossa sensibilidade...
Como nas tragdias clssicas da Grcia, os contos de fadas nos permitem realizar uma catarse, palavra grega que significa purgao, purificao e limpeza. Ela faz 
com que extravasemos nossas emoes mais reprimidas, colaborando para que nos livremos dos maus sentimentos e dos traumas mais variados. Dessa forma,

132 j PEDAGOGIA PO AMOR
renovados pelas mos de Cinderela, somos convidados e conduzidos a um baile especial. Um espetculo em que ela prossegue como estrela principal, executando nmeros 
to complexos quanto belos. A exibio de Cinderela nos leva s emoes mais diversas e nos faz questionar e refletir sobre a msica e a dana de nossa prpria vida, 
mesmo de forma inconsciente.
E dessa maneira inusitada, desprevenidos, atnitos e extasiados, vemos Cinderela dar vida a uma coreografia frentica em que predominam bales diversos que unem o 
clssico e o moderno. Danas atemporais que sintetizam as caractersticas das histrias que se fazem eternas.
Sua habilidade em sair ilesa dessa valsa arrojada, de acordes to dspares quanto meldicos, produz em todos os espectadores uma espcie de sensao hipntica. Ficamos 
to encantados, to enlevados pela postura e pelas habilidades dessa bailarina inconfundvel que comeamos a segui-la e, ento, sem nos dar conta, entramos numa 
espcie de labirinto. Um caminho sem volta. Somos, para sempre, enredados em sua trama. Uma vez dentro do labirinto de uma boa histria, no h mais como sair. Desprovidos 
do fio de Ariadne - que guiava Teseu pelo labirinto do Minotauro - ficamos, para sempre, aprisionados, condio imprescindvel para apreender de cor suas lies 
encantadoras.
Assim  com Cinderela. Uma vez conhecida a narra-

ClNDFRELA E O VALOR i
iDADF!   133
tiva, uma vez vencidos pela beleza indescritvel da protagonista, uma vez seduzidos pelo encanto sem igual de seus personagens, somos automaticamente, e para sempre, 
influenciados. Atrados pelos seus desgnios, pelos seus modos, pelos seus dons, pelos seus valores, pelas suas aes, pelos seus temores, pela sua coragem, pela 
sua verdade mais profunda.
No  por outro motivo que a trajetria da jovem humilhada pela madrasta e pelas suas filhas vem comovendo geraes h sculos, tornando-se uma narrativa referencial 
em diversos pases.
Quando j estamos crescidos e, portanto, mais preparados para questionar a razo de todo o sucesso desse conto de fadas, vemos que a grandiosidade da herona  um 
dos motivos pelos quais nos encantamos com a trama difundida por Charles Perrault. Se refletirmos sobre o drama da protagonista, veremos que Cinderela, apesar de 
preterida, subjugada e rebaixada  condio de servial explorada e espicaada, no acolhe nem alimenta sentimentos negativos tanto em relao s vils como em relao 
ao mundo de forma geral.
Seu carter nobre, sua ndole pacfica e tranqila, seu jeito meigo e doce no oferecem condies para que a vingana, a raiva, a inveja e o dio se instalem em 
seu corao repleto de generosidade e amor. Em algumas passagens da trama  possvel vislumbrar em Cinderela uma altivez tpica de quem nutre por seus inimigos e

h     ,1
134 ! Pfb^GociA no AMOR
malfeitores somente pena e compaixo - atitude que chega a ser confundida com uma possvel submisso da personagem.
Temos em Cinderela um cone dos injustiados e dos oprimidos. A representao de uma mrtir capaz de suportar e, no final de seu calvrio, sobrepujar as injustias 
e os sofrimentos mais diversos, ocasionados pela rivalidade fraternal e pela maldade - vilanias que se configuram como as temticas centrais do conto ao lado de 
seu contraponto, a bondade.
Em meio a esse turbilho de provaes, Cinderela permanece pura de corao. Nada parece abalar suas virtudes, suas qualidades, sua doura, sua humildade exemplar, 
que serve de escudo para que a protagonista possa suportar as numerosas investidas malficas da madrasta e de suas invejosas filhas. Humildade que a faz resistir 
s etapas dolorosas mas fundamentais ao crescimento interior e  descoberta das prprias potencialidades. Humildade que a leva a conquistar, no final de tudo, a 
recompensa necessria em forma de felicidade eterna.
Tal como no mito da fnix, Cinderela ressurge das cinzas e recupera o que  seu por direito: a capacidade de ser feliz, de ser amada, querida, desejada. Essa conquista 
nos ensina que a dor  um estgio importante no processo de aquisio de sabedoria. Cinderela refora em todos ns o conceito de que o aprendizado , muitas

 E o VAJOR n-\ m
!M
13 5
vezes, construdo por meio de experincias penosas. E  preciso venc-las e suplant-las para que alcancemos a vitria. As virtudes, os valores e as aes que pautam 
a vida de Cinderela, independentemente das mazelas que afligem a herona em seu percurso, nos alertam para o fato de que  preciso estar atentos para no ceder  
maldade, mesmo que ela nos tente repetidas vezes.
Num momento crucial da narrativa, em que parece no haver sada para a personagem, surge o ser onrico encarregado de providenciar a salvao, a volta por cima, 
uma espcie de renascimento espiritual da herona. Cinderela recebe auxlio por meio da interveno oportuna de um aliado especialmente enviado para defend-la e 
lhe conceder os instrumentos necessrios a sua transformao.
Trata-se de uma fada madrinha que, em noite de baile na corte, vem em seu socorro tirando-a das cinzas e munindo-a dos apetrechos fundamentais que a transformaro 
e a caracterizaro como a mais linda das princesas. Uma princesa capaz de conquistar o amor. Um amor redentor que acarretar em suas opositoras sensaes de rejeio, 
de frustrao e de desprezo, armas equivocadamente utilizadas para maltratar Cinderela ao longo de toda a histria.
A narrativa  eficaz justamente porque transmite ao sblico a certeza de que o bem sempre vence o mal inde-sendentemente dos poderes, das artimanhas e dos ar-

136 | PEDAGOGIA DO AMOR
tifcios utilizados pelos viles que protagonizam essa conhecida e temida batalha universal. Por meio da jornada de Cinderela, que, em nenhum momento, se desviou 
do caminho do bem, compreendemos que a hum dade, a bondade, a simplicidade e a singeleza so reconhecidas e recompensadas no final da trajetria de todos os heris 
e, por extenso, de todas as pessoas.
Da a necessidade de fazer desse texto um modelo para crianas e jovens que, hoje, precisam reforar valores e conceitos essenciais  boa convivncia familiar e 
social. Cinderela  como um verdadeiro mapa que aponta os caminhos mais difceis, porm mais importantes, para que possamos construir uma existncia voltada  tica 
e ao bem coletivo. Valores e aes que contribuiro para a paz e para a unio entre nossos irmos mais prximos e tambm entre os povos de todas as naes.
Cinderela, aparentemente frgil e indefesa, traz em si a fortaleza que caracteriza as pessoas que tm em seus sonhos um porto seguro onde ancorar no fim de violentas 
e perigosas tempestades. No trmino de sua histria, vemos que o importante  preservar a bondade, a pureza e a humildade, valores renovadores que nos do coragem 
para continuar a lutar e, melhor ainda, que nos ensinam a danar, com competncia e gra- = a, a valsa singularssima de nossa histria.
 preciso que tenhamos, como Cinderela, a humildade de compreender que existe um tempo para tudo.

ClNPERfLA f O VAIOR DA  Hl'Mt               137
Sem humildade, a princesa no teria sequer escutado a fada madrinha. No teria acolhido seus conselhos. Ter-se-ia deixado levar pela beleza majestosa do baile, desprezando 
o aviso da fada mesmo aps as badaladas do relgio... Somos todos eternos aprendizes.  temos de nos conscientizar de que, s vezes, a humildade  a nica chave 
para abrir a porta de um futuro melhor, mais condizente com os sonhos acalentados no presente.
No dia-a-dia, vemos situaes absurdas e constrangedoras causadas unicamente pela ausncia de humildade e das demais qualidades que vm com ela.  o caso do diretor 
de escola que humilha os funcionrios da limpeza.  o caso do professor que no acredita que a relao entre educador e educando  de pura troca, de puro aprendizado. 
A humildade est profundamente ligada  conscincia da efemeridade do poder. Tudo  passageiro, transitrio... No se deve mensurar o valor de ningum pelo cargo 
que exerce. Infelizes daqueles que se consideram melhores que os outros pela posio social que ocupam.
O melhor mesmo  saber-se humano.  saber-se centelha divina.  resistir sempre...  no se deixar abater, no se entregar, no se dar por vencido. O melhor mesmo 
 acreditar que estamos aqui para aprender, para sonhar, para transformar e para concretizar os planos mais variados.
Como  bonita a conscincia de poder servir e com-

138    PLDAGOGIA DO AMOR
preender a superioridade do ser e a transitoriedade do ter.  esse o grande lema dos humildes. Segui-lo  sinal de sabedoria... Mas essa j  outra histria.
i         I I

O REI SALOMO E O
VALOR DA SABEDORIA

No basta saber,  prefervel saber aplicar. No  bastante querer,  preciso saber querer.
Goethe

ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
Saber, sabedoria, sapincia, sabor... Palavras interligadas pela semelhana e complementaridade dos respectivos significados, cuja origem provm do latim. Sapincia, 
por exemplo, vem de sapientia e quer dizer "sabor, bom paladar; aptido, habilidade, capacidade, instruo; razo, bom senso; sabedoria, prudncia, siso, tino; moderao, 
indulgncia, benignidade". Ao longo da Histria, o termo j foi registrado grafi-camente como sapincia, sapientia e ssapiemia. \ Quanto ao vocbulo sabedoria, 
observamos um n- mero ainda maior de mudanas ortogrficas registradas no decorrer dos sculos, como ssabedorya, | sabedora, sebedorya, ssajaria, sabidora e 
sabeza. J o equivalente grego de sabedoria  sofia, que significa "habilidade manual; saber, cincia; sabedoria".
I

142    Pin,v;oc.iA DO AMOR
Em lngua portuguesa, a palavra sabedoria e classificada como substantivo feminino, recebendo as seguintes designaes: "qualidade de sbio; carter do que  dito 
ou pensado sabiamente; acmulo tie muitos conhecimentos; grande instruo, cincia, erudio, saber; justo conhecimento, natural ou adquiri do, das verdades; conhecimento 
da verdade; massa dos conhecimentos adquiridos; cincia; prudncia e moderao no modo de agir; temperana, reflexo; virtude de esperto; astcia, manha; discernimento 
inspirado nas coisas sobrenaturais e humanas".
Em seu livro Entre a cincia e a sapincia - O dilema da educao, o educador e escritor Rubem Alves faz uma deliciosa comparao entre o saber e o sabor, dando 
s duas palavras um peso equivalente na jornada estimulante rumo ao conhecimento. Na verdade, a sabedoria  uma virtude de importncia crucial. Possu-la significa 
ser capaz de reunir todas as outras qualidades edificantes que, ao que tudo indica, tm parentesco estreito com a sabedoria. Cultiv-la implica estar em aprendizado 
constante, de modo que o sbio tem conscincia de quanto  valioso descobrir, desvendar e investigar. Essa sede de saber  uma caracterstica natural do homem, que, 
mesmo assim, tem livre-arbtrio para saci-la ou para acomodar-se logo depois dos primeiros goles.
Nas antigas civilizaes, a sabedoria sempre foi reverenciada. Os ancios eram considerados sbios

O REI SALOMO E O VALOR DA SAU^RIA! 143
devido ao acmulo de experincias obtidas ao longo da vsda. Por isso eram sempre consultados pela populao quando havia alguma dvida ou impasse em relao a temas 
e situaes variados. Observamos referncias a essas prticas nos registros histricos e literrios que trazem relatos sobre o passado de Roma e da Grcia, por exemplo. 
A Bblia tambm  profcua em histrias que fazem meno a esse costume e ainda contm textos extremamente poticos que dis-sertam sobre a sabedoria e todas as suas 
nuanas. No Eclesiastes, por exemplo - texto pertencente ao Antigo Testamento, mais precisamente aos seus Livros Poticos ou Sapienciais -, vemos que a sabedoria 
tem uma profunda relao com o tempo e com a compreenso do seu ritmo, de sua cadncia e de sua melodia, muitas vezes decodificada com extrema dificuldade pelos 
ouvintes da vida.
 o que vemos nas linhas e entrelinhas do fragmento a seguir, que extramos do texto mencionado.
TEMPO PARA TUDO OU
O TEMPO CERTO DE CADA COISA
H um momento para tudo e um tempo para todo propsito debaixo do cu.
I

144   PEDAGOGIA DO AMOP
Tempo de nascer
e tempo de morrer;
tempo de plantar
e tempo de arrancar a planta.
Tempo de matar
e tempo de curar;
tempo de destruir
e tempo de construir.
Tempo de chorar
e tempo de rir;
tempo de gemer
e tempo de bailar.
Tempo de atirar pedras
e tempo de recolher pedras;
tempo de abraar
e tempo de separar.
Tempo de buscar
e tempo de perder;
tempo de guardar
e tempo de jogar fora.
Tempo de rasgar
e tempo de costurar;
tempo de calar
e tempo de falar.
Tempo de amar
e tempo de odiar;


 RFI SALOMO E O VAIOR n<\ *\ftrr><iRiA 145
tempo de guerra e tempo de paz.
Eclesiastes, cap. 3, v. 1-9
Temos de apurar nossos sentidos para captar e reproduzir toda a sabedoria do rio quando realiza seu percurso. Rio sbio que, em sua fluidez contnua, mesmo considerando 
as margens muito bonitas, tem de apreci-las e reverenci-las no exato momento de sua passagem. Da mesma forma, tem de permanecer altivo e cumprir a sua misso quando, 
durante o seu curso, transita por paisagens de beleza inferior  sua expectativa. Precisamos, assim como o rio, estar em sintonia com o tempo de que dispomos e com 
os ensinamentos que ele nos oferece. Tanto para o rio quanto para a humanidade, cada segundo  nico e, aps viv-lo, simplesmente no h mais volta. No h a menor 
possibilidade de rever a mesma paisagem ou situao. Tudo se modifica, mesmo de maneira quase imperceptvel aos olhos dos homens.
No Livro de J, que, assim como o Eclesiastes, pertence aos Livros Poticos ou Sapienciais da Bblia, temos, por sua vez, um texto denominado "O elogio da sabedoria", 
que realiza um questionamento a respeito das dificuldades de todos os mortais para obt-la em

146 I PEDAGOGIA DO AMOR
sua plenitude. De acordo com esse texto especfico, a sabedoria s pode ser alcanada por meio de um nico caminho: o temor a Deus. J a conquista da inteligncia 
depende de nossa habilidade para seguir os rumos corretos, desprezando os demais caminhos que possam surgir  nossa frente. Vejamos alguns desses belos versculos 
e atentemos para o modo como a sabedoria  totalmente divinizada nesse contexto em especial:
Mas a Sabedoria, donde provm ela?
Onde est o lugar da Inteligncia?                        JXJ
O homem no conhece o caminho,
nem se encontra na terra dos mortais.
Diz o abismo: "No est em mim".
Responde o mar: "No est comigo".
No se compra com o ouro mais fino
nem se troca a peso de prata,
no se paga com o Ouro de Ofir,
com o nix precioso ou safiras.
No a igualam o ouro nem o vidro,
no se paga com vasos de ouro fino.
Quanto ao coral e ao cristal, nem falar!
 melhor pescar a Sabedoria do que as prolas.
No se iguala ao topzio de Cuch
nem se compra com o ouro mais puro.
Donde vem, pois, a Sabedoria?
Onde est o lugar da Inteligncia?

O RFi SALOMO E O VALOR r\ ^\BEDORIA   147
Est oculta aos olhos dos mortais
e at das aves do cu est escondida.
A Perdio e a Morte confessam:
"O rumor de sua fama chegou at ns".
S Deus conhece o caminho para ela,
s ele sabe o seu lugar.
(Pois contempla os limites do orbe
e v quanto h debaixo do cu.)
Quando assinalou seu peso ao vento
e regulou a medida das guas,
quando imps uma lei  chuva
e uma rota para o relmpago e o trovo,
ele a viu e avaliou,
penetrou-a e examinou-a.
E disse ao homem:
"O temor do Senhor, eis a Sabedoria;
fugir do mal, eis a Inteligncia".
J, cap. 28, v. 12-28
Como vimos, o sabor do saber pode ser descrito de vrias formas. O importante  atentar para o fato de que nem sempre  possvel conhecer a mais requintada delas... 
Mas, respeitando o princpio de que o ser humano busca superar-se a cada momento, devemos procurar a sabedoria por toda a vida, sob pena de desprezarmos a valiosa 
oportunidade de dar um sentido pleno  nossa existncia.

148   PEDAGOGIA DO AMOR
PARA RECORDARA HISTORIA:
A SABEDORIA DE SALOMO
O Primeiro Livro dos Reis, um dos livros histricos da Bblia, narra a trajetria de Salomo, filho de Davi, rei cujas obras e feitos marcaram para sempre a histria 
do povo de Israel. Aps a morte de Davi, Salomo sucedeu-o no trono e, certa noite, Deus apareceu em sonho ao jovem soberano dizendo: "Pede o que eu devo te dar". 
Salomo, ento, lembrou-se de todas as qualidades com as quais Deus presenteara seu pai, tornando-o um guerreiro especial, inteligente, sagaz e ousado, sem deixar 
de ser, ao mesmo tempo, um poeta sensvel e um homem de carter justo e honrado. Considerando a vida e os exemplos de seu antecessor, Salomo, com prudncia admirvel, 
solicitou ao Senhor: "D, pois, a teu servo um corao obediente, capaz de governar teu povo e discernir entre o bem e o mal. Do contrrio, quem poder governar 
este teu povo, que  to numeroso?" O desejo do novo rei de Israel agradou a Deus justamente pela seriedade e pelo altrusmo que continha. Por isso a resposta divina 
a Salomo nos oferece uma amostra bastante elucidativa dos benefcios que podemos conquistar quando agimos motivados pela pureza de corao e de espirito: "] que 
pediste esses dons e no pediste para ti longos anos de vida nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, e sim sabedoria para praticar a justi-

O RFI SALOMO  O VAIOR      JABDORIA   149
a, vou satisfazer o teu pedido. Dou-te um corao sbio e inteligente de modo que no houve igual antes de ti nem haver depois de ti. E dou-te tambm o que no 
pediste: as riquezas e a glna, de tal modo que no haver igual entre os reis durante toda a tua vida. E se andares nos meus caminhos e observares os meus preceitos 
e mandamentos, a exemplo de Davi, teu pai, eu te darei uma longa vida".
E assim Salomo reinou durante quarenta anos e passou  Histria como um rei dotado da mais alta sabedoria, capaz de julgar de forma justa e correta. Um sbio detentor 
de grandes conhecimentos. Um soberano habilidoso na arte de governar de forma pacfica e empreendedora a ponto de acumular, ao longo dos anos, numerosas riquezas 
e, mais importante, a considerao, o respeito e a estima de seus sditos.
De acordo com o texto bblico, Salomo discorria com propriedade sobre os temas mais variados, despertando o interesse e a curiosidade dos povos de todas as naes, 
que enviavam representantes para v-lo e ouvi-lo. Todos costumavam levar presentes ao rei, a quem tambm foi atribuda a autoria de trs mil provrbios e cinco mil 
cnticos.
E bastante conhecida a histria que versa sobre o famoso "juzo salomnico". A Bblia conta que certo dia duas meretrizes se apresentaram diante do rei com um beb 
do sexo masculino exigindo, ambas, a guarda


150 i PEDAGOGIA DO AMOR
daquela criana. A primeira mulher explicou que ambas estavam grvidas e moravam na mesma casa. Ela dera  luz aquele menino. Trs dias depois, a outra mulher tambm 
teve um menino que, certa noite, morreu sufocado porque a me adormecera sobre ele. A me do beb morto teria, ento, trocado os bebs enquanto ela dormia a sono 
solto com o filho saudvel nos braos.
A segunda mulher disse que essa verso era mentirosa e a criana viva era seu filho. Salomo ouviu atentamente a narrao das duas mulheres e, logo em seguida, mandou 
trazer uma espada. Quando a arma chegou ao local da disputa, o rei declarou: "Cortai o menino vivo em dois e dai metade a uma e metade a outra". Foi ento que a 
me verdadeira - a primeira mulher que havia con-tado a histria - desesperou-se e gritou para que a criana fosse dada  mulher que estava mentindo. Esta, pelo 
contrrio, dizia: "No ser nem teu nem meu. Podeis cort-lo". Percebendo quem realmente nutria amor mate: nal pelo beb, Salomo respondeu: "Dai o menino vivo quela 
primeira, e no o mateis. Essa  sua me".
Esse episdio ficou conhecido por todo o povo de Israel, que passou a ter conscincia da sabedoria do rei Salomo, do seu senso de justia e da presena de Deus 
em todas as suas aes.

O kEi SALOMO E O VALOR, DA SAB^ >>      151 A SABEDORIA PODF SER CONQUISTADA
"Saber  poder", diz o dito popular. Essa assertiva faz com que pensemos a respeito da importncia do saber em nossa vida e de como ele pode nos abrir portas para 
as mais variadas conquistas. O saber  o instrumento que nos garantir uma vida mais digna e nos provera de um bem-estar essencial para a nossa felicidade. At porque 
a arte do bem viver vai sendo adquirida, construda e solidificada ao longo do tempo e retocada, constantemente, pelos ensinamentos apreendidos. Nessa caminhada 
moral e espiritual - que nos conduz ao desenvolvimento ininterrupto -, o conhecimento  um bem por demais valioso. E  necessrio muita dedicao e esforo para 
conquist-lo de modo a torn-lo nosso aliado no enfrentamento das batalhas inerentes  condio humana.
O fato  que, desde o nascimento, vivenciamos as experincias mais diversas e, mesmo sem nos dar conta, vamos aprendendo e evoluindo de forma inconsciente, desordenada 
e desorganizada. De maneira gradativa, vamos recolhendo as peas capazes de nos garantir a montagem de um quebra-cabea bsico para a sobrevivncia. Prova disso 
 que, primeiramente, nos familiarizamos com rostos, vozes, risos, cheiros e entonaes -imagens, sons e sensaes que compem esse mosaico cujo sentido s procuraremos 
desvendar tempos depois,

152 I PEDAGOGIA DO AMOR

na maturidade. Dependendo do modo como absorvemos e trabalhamos essas informaes fragmentadas, comeamos a construir a nossa sabedoria.
 preciso lembrar que, a princpio, na fase inicial de nossa histria pessoal, a natureza nos auxilia muito na medida em que nos concede o instinto, uma espcie 
de pea-chave sem a qual no poderamos dar prosseguimento ao jogo da vida.  por meio dele que, quando bebs, choramos em alto e bom som para chamar a ateno sobre 
qualquer problema que possa nos atingir em nosso pequeno mundo ainda desprovido de consideraes e argumentos racionais.
Choramos para pedir colo e afastar a solido do bero, choramos quando temos fome, sede, dor... Em seguida, para que tenhamos mais autonomia e capacidade de ao, 
inconscientemente vamos esboando os primeiros movimentos mais complexos para a infra-estrutura ssea de um beb e para sua limitada coordenao motora. Assim, tentamos 
nos arrastar e, logo depois, descobrimos que podemos usar os joelhos e as mos na realizao de um processo denominado engatinhar. Esse estgio dura pouco... Desde 
muito cedo,  caracterstica do homem no se dar por satisfeito, querendo sempre mais, avanando, superando seus limites, concretizando seus projetos e ideais
Assim, caindo e levantando sucessivas vezes, conseguimos dar os primeiros passos em direo ao caminho

') RII SALOMO E O VALOR DA SABP             153
infinito de nossas conquistas.  dessa maneira que vamos acumulando o que, gradativamente, se transforma em saberes.  uma busca rdua, mas gratificante. Uma procura 
sem fim, mas imprescindvel.
A histria bblica do rei Salomo mostra a grandeza de um jovem sbio que, no momento em que teve a oportunidade de escolher o que quisesse, abriu mo de bens materiais, 
da possibilidade de se vingar dos inimigos e at da longevidade em benefcio de algo realmente fundamental para a concretizao de um reinado justo: a sabedoria. 
Seus aprendizados acumulados lhe proporcionaram uma conscincia apurada e uma ampla viso dos valores essenciais. Ao pedir sabedoria a Deus, Salomo escolheu uma 
virtude capaz de fazer com que todos ns andemos seguros, aprumados, confiantes. Algo que nos afasta de vez do processo de engatinhar - concreta e metaforicamente.
O sucessor de Davi tinha a conscincia de que essa virtude  composta de um misto de qualidades como idealismo, humildade, honestidade, coragem, esperana, compaixo, 
criatividade, respeito, f.  ela, a sabedoria, que garante a iluminao de nossa trajetria e nos sustenta nos momentos de opresso e desespero. Um ditado oriental 
diz que "o sbio teme o cu sereno; em compensao, quando vem a tempestade, ele caminha sobre as ondas e desafia o vento". Essas palavras nos do bem a dimenso 
de como o sbio  provido de

154 i PEDAGOGIA DO A.MOR
autoconfiana, autocontrole e perseverana para resistir, para lutar e para superar suas limitaes. O sbio dispe, sobretudo, de nimo e entusiasmo.
Esse esprito inabalvel caracteriza os sbios, mas nem por isso os poupa do sofrimento e da dor que, no raro, resultam da luta pela realizao de seus grandes 
ideais. Isso nos motiva a prosseguir mesmo quando j nos sentimos cansados e enfraquecidos pelas intempries e pelos obstculos do caminho.
Assim,  fundamental que os exemplos contidos nas histrias das grandes personalidades de todos os tempos nos estimulem a jamais abandonar nossa jornada. Uma jornada 
que, sem dvida, poder ser bem mais promissora se utilizarmos as virtudes como veculo para " trafegar por ela.
Nesse sentido, entendemos que a atitude de Salomo de rogar a Deus por sabedoria  um modelo a seguir. Precisamos nos orientar, nos convencer da importncia de valorizar 
as virtudes essenciais de maneira que estejamos preparados para esse caminhar sobre as ondas. Um caminhar altivo a ponto de desafiar os ventos sem temor.
Nesse caminhar,  necessrio lembrar que a busca da sabedoria tambm demanda silncio, interiorizao e compreenso do tempo, como nos revela o livro do Ecle-siastes. 
A impacincia c a pressa s prejudicam a percepo da verdade essencial das coisas. No podemos ser como as crianas que, vidas por continuar brincando,

O RI SAIOMO r o VAIOR DA SABFIW
155
querem, como por encanto, que o machucado fique bom imediatamente. O sbio, pelo contrrio, tem conscincia de que todas as feridas levam certo tempo para cicatrizar.
Diferentemente daqueles que trilham os caminhos da sabedoria e que, por isso mesmo, tm a habilidade de escolher o momento certo para cada coisa, o impulsivo agride, 
grita, age de modo impensado, arrepende-se e, constantemente, exige demais dos outros, provocando infelicidade em seu redor. At porque as pessoas insatisfeitas, 
mesmo sem perceber, projetam sua frustrao naqueles que esto em volta. J o sbio se abastece o tempo todo, se alimenta de suas experincias e das observaes 
relativas s vivncias alheias. Assim, no precisa exigir demais das outras pessoas. Ele automaticamente atrai para si aprendizes e discpulos valiosos que esto, 
dia a dia, indo em direo ao aprimoramento.
A respeito disso,  interessante pensar sobre o que pediriam os moos e as moas de nossa poca se lhes fosse dada a mesma oportunidade oferecida ao rei Salomo. 
O que desejariam receber? O que considerariam mais importante na vida? O que solicitariam a Deus?
O fato  que a sociedade atravessa um momento paradoxal. De um lado, as crises, as incertezas, a inverso de valores, a violncia extremada, o desrespeito e a intolerncia. 
De outro - e a reside a antinomia - a capacidade de mudar, a vontade de acertar e de, enfim, virar o jogo.

15b    PF.DAGOC.IA DO AMOR
Prova disso  que milhares de organizaes no-governamentais foram criadas para marcar o passo ritmado de uma sociedade verdadeiramente mobilizada, atuante e preocupada 
com o bem-estar coletivo, com a preservao do meio ambiente e com a gesto responsvel das polticas pblicas de modo geral.
O mais importante  que essa sociedade mais altrusta e dinmica conta com a presena macia dos jovens. As escolas, por exemplo, comeam a ser invadidas por uma 
onda positiva e contagiante. Uma onda de amor, de afeto e de compaixo que contribui para a aquisio e a solidificao da cidadania, da conscincia crtica e de 
apurado senso de justia social - caractersticas que culminam com o desenvolvimento de potenciais diversos por parte dos estudantes.       '
So campanhas fraternas, trabalhos voluntrios, arrumao e organizao do prprio ambiente estudantil e, ainda, a criao de projetos voltados, em sua maioria, 
s comunidades carentes do entorno escolar. E ura sinal de amadurecimento. Um indcio de sabedoria. A sabedoria de cuidar do que  realmente essencial. Do individual 
para o coletivo e vice-versa.                         i
Nas igrejas, nos hospitais e nas ruas,  maravilhoso perceber a imensa quantidade de pessoas que trabalham pelo bem de outras sem exigir nada em troca.  o esprito 
do bem que se manifesta na medida em que todo esse exrcito de cidados poderia ocupar seu tempo,

O RFI  S.MOMO  F O V.MOR HA SABFDO
157
seus esforos e sua energia em benefcio dos prprios
interesses.
 nosso dever incentivar essa mudana e prosseguir incutindo em nossos filhos, sobrinhos, netos e alunos lies e exemplos que contribuam sobremaneira para a formao 
de seu carter - palavra que tem suas origens no termo grego charakter, cujo significado  "marcas resistentes". Moldar o carter, manter os ensinamentos fundamentais 
realmente impregnados em nossos aprendizes , por assim dizer, trabalhar na concepo e na confeco de peas artsticas, obras que demandam a dedicao especial 
e a pacincia infinita de procurar ensinamentos e mecanismos que possibilitem sua elaborao ao longo do tempo. Um tempo que possa moldar seres humanos mais sbios, 
empreendedores e competentes... Seres que aparentem trazer em si a prudncia, a temperana e a sensatez do rei Salomo.


O PATINHO FEIO E O VALOR DO RESPEITO

Se todo animal inspira ternura, o que
houve, ento, com os homens?
Joo Guimares Rosa

.F
I    '
ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
A palavra respeito vem do latim respectus, que quer dizer "ao de olhar para trs; considerao, respeito, ateno, conta; asilo, acolhida, refgio". Ao longo do 
tempo, o termo foi registrado como respeyto, respeito e rrespecto. No Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa, o vocbulo tem as seguintes acepes: "ato ou efeito 
de respeitar(-se); sentimento que leva algum a tratar outrem ou alguma coisa com grande ateno, profunda deferncia; considerao, reverncia; obedincia, acatamento; 
modo pelo qual se encara uma questo; ponto de vista; o que motiva ou causa alguma coisa; razo; relao, referncia; estima ou considerao que se demonstra por 
algum ou algo; sentimento de medo; receio". No plural ("respeitos") designa homenagens, cumprimentos.

162 , PHMGOCIA no AMOR
O conceito de respeito est intimamente ligado s aes que levam  prtica do bem coletivo e favorecem a manuteno da paz, da unio e da boa vontade entre os povos. 
Por natureza, seu emprego est alia do a virtudes de igual importncia, como a sabedoria, a humildade e a simplicidade.  tnue a linha que o separa da igualdade 
e da fraternidade, posto que, comumente, esses valores coexistem, originando atitudes e sentimentos de rara beleza.
Geralmente, a noo de respeito est presente de forma implcita ou explcita em pensamentos e mximas populares que sintetizam as regras, as condutas, os padres 
e as normas sociais que regem a humanidade, como nas frases-exemplo: "No faa com o outro o que no gostaria que fizessem a voc" ou "Respeito  bom e eu gosto". 
Frases como essas nos do a dimenso da importncia capital do respeito e, ao mesmo tempo, lembram a todos quanto essa virtude  fundamental para a vida em comunidade. 
Infelizmente, o seu emprego tem sido relegado a ponto de observarmos a ascenso do preconceito, da competitividade exacerbada, da banalidade dos relacionamentos, 
do materialismo e da ambio desmedida.
Em filosofia, as reflexes e os discursos proferidos sobre o respeito merecem destaque, como a passagem em que o grego Protgoras expe suas consideraes sobre 
o assunto: "(...) temendo que nossa es-

O PATINHO FF1O F O VAI OR DO KFSPFITOi   163
tirpe se extinguisse, Zeus ordenou que Hermes trouxesse o respeito recproco e a justia para o meio dos homens a fim de que esses fossem princpios ordena-dores 
das cidades, criando entre os cidados vnculos de benevolncia"4.
PARA RECORDAR A HISTRIA: O PATINHO FEIO
O patinho feio narra a histria de uma ave cuja feira causava extremo desprezo entre seus familiares e os animais do lugar onde nasceu, mas que no final da trama 
consegue vencer as adversidades do destino, superando os obstculos e provando sua superioridade. Hans Chris-tian Andersen, nascido em 1805 na cidade de Odense, 
na Dinamarca,  o autor da saga da avezinha sofredora. Filho de um sapateiro e de uma lavadeira, Andersen teve uma infncia pobre, que o privou do acesso a uma educao 
regular, mas ele sempre contou com o incentivo do pai, que, apesar da falta de instruo e da origem humilde, teve sensibilidade suficiente para estimular o jovem 
Andersen a cultivar o interesse pelo teatro e pela literatura. A me tambm teve importncia decisiva na trajetria do autor, uma vez que permitiu a sua partida 
para Copenhague, capital da Dinamarca, com apenas 14 anos.

164   PFDAGOGIA DO AMOR
Em sua jornada rumo ao sucesso, Andetsen foi cantor, ator e dramaturgo antes de tornar-se escritor. A persistncia parecia fazer parte do rol de virtudes do autor. 
Prova disso  que seu primeiro livro, Tentativas juvenis (1822), foi um fracasso, vendendo apenas dezessete cpias. Os demais exemplares foram comprados por um comerciante 
que os utilizou como papei de embrulho. J sua segunda obra foi escrita aps Andersen realizar uma longa viagem pela Europa em que reuniu o material necessrio para 
a criao do bem-sucedido romance The improvisatore (1835).
Apesar das razes plebias, o autor obteve passagem livre para freqentar a corte, tornando-se figura constante nos sales do rei e da nobreza. Dentre suas histrias 
mais conhecidas, temos A roupa nova do rei, Polegarzinha, O rouxinol, A princesa e a ervilha, O valente soldado de chumbo, A sereiazinha, O sargento verde e A pequena 
vendedora de fsforos.
Os livros de Andersen tornaram-se um verdadeiro sucesso editorial, com reedies sucessivas tanto no Ocidente quanto no Oriente. Os textos, primorosos, so comumente 
acompanhados por belssimas ilustraes, que contribuem para realar a atmosfera mgica descrita magistralmente pela pena do artista dinamarqus.
A histria de O patinho feio tem incio num lindo dia de vero em que a mame pata chocava seus ovos, aguardando ansiosamente o nascimento dos patinhos. Faltava

O PATINHO FEIO E O VALOR DO RFSr-ll' >     165
pouco para que os ovos se partissem, mas a verdade era que ela ja estava bastante cansada de ficar ali esperando pacientemente enquanto observava os outros animais 
caminhando, nadando e correndo livremente pelo campo. Talvez por isso quase no recebesse visitas, pois os outros patos gostavam mais de nadar que de permanecer 
sentados sob as rvores para tagarelar com ela.
Finalmente, os ovos comearam a estalar e, um a um, os patinhos puseram as pequenas cabeas para fora e saltaram da casca. Dona Pata grasnou alegremente e deixou 
que os pequenos admirassem a paisagem. Todos, muito espantados, observaram como o mundo era grande. De repente, mame pata percebeu que um ovo, o maior deles, permanecia 
intacto. Meio chateada com a demora, ela decidiu choc-lo mais um pouco e aproveitou para comentar o acontecido com uma velha pata que passava por ali. Olhando o 
ovo atentamente, a velha afirmou tratar-se de um ovo de perua devido ao tamanho exagerado.
Tempos depois, o ovo comeou a estalar e, de seu interior, saiu um patinho muito grande e feio. Dona Pata olhou-o, entristecida, pensando tratar-se realmente de 
um ovo de perua. Resolveu, ento, levar todos os filhotes para a gua de modo a testar as habilidades aquticas do estranho patinho. Todos se saram muito bem, inclusive 
o patinho feio. Ento a pata descartou aquela idia do filhote de perua.

166 I PEDAGOGIA DO AMOR.
Todos os outros patos passaram a observar as diferenas entre o patinho feio e seus irmos. Teciam comentrios maldosos sobre sua feira, sua falta de elegncia, 
seu jeito de andar. Um dos patos, inclusive, achou por bem bicar o filhote no pescoo, tamanha era a repugnncia que o pobre bichinho lhe causava.
Mame pata pedia que o deixassem em paz, afinal era apenas um patinho estranho e indefeso. Quanto aos comentrios sobre a feira do filhote, argumentava que ele 
nadava bem e talvez no futuro pudesse se assemelhar fisicamente aos demais. As intervenes da mame pata de pouco adiantaram porque o bichinho continuava a ser 
bicado e maltratado por todos. At seus irmos o aborreciam com comparaes. A prpria me, certa vez, desejou v-lo bem longe.
Cansado de tantas humilhaes e chacotas, o filhote resolveu partir mesmo sem saber que rumo tomaria. Nadou, caminhou ao relento, passou fome, sede, frio... Sofreu 
por ser alvo de tantas rejeies. Certo dia, chegou a um campo onde viviam patos selvagens. Exausto, decidiu passar a noite l. Na manh seguinte, viu-se cercado 
por essas aves selvagens, que tambm manifestaram repulsa em relao  sua aparncia. Entretanto, permitiram que ele ficasse - desde que no se envolvesse com nenhuma 
pata. O patinho permaneceu no lugar durante dois dias at que uns gansos selvagens e mal-educados propuseram que ele servisse de divertimento

O PATINHO FEIO E O VALOR DO
167
para as gansas} que adorariam rir de sua esquisitice, num lago prximo dali.
Nesse momento, ouviram-se ttros. Caadores estavam escondidos no arvoredo. Os ces farejavam em volta, alarmando o pobre patinho, que esperou muitas horas ali sentado 
at que a confuso cessasse. Assim que foi possvel, fugiu correndo e, tarde da noite, chegou a um casebre miservel, cuja porta se abrira com o vento. L vivia 
uma senhora idosa, com um gato e uma galinha. A princpio, a velha, que no enxergava bem, pensou tratar-se de uma pata que pudesse lhe dar ovos. Aps trs semanas, 
o patinho foi observado e, ao ver que os ovos no apareciam, todos comearam a fazer pouco dele novamente. Aproveitando sua louca vontade de nadar e de tomar sol, 
ele resolveu ir embora. Atirou-se na gua, nadou e mergulhou, sentindo-se mais calmo. Era outono e j havia no ar indcios do frio invernal. O patinho ficou amedrontado 
com a possibilidade de permanecer ao relento nessa situao.
Chegou o inverno. Uma tarde, quando o sol se punha, um bando de bonitos pssaros surgiu do arvoredo. O patinho nunca vira animais to belos e imponentes. Eram cisnes 
de uma brancura maravilhosa, com pescoos longos e curvos. Admirado, o patinho observava o modo como abriam suas asas. No os conhecia, mas sentia-se estranhamente 
atrado por eles. Imediatamente, pensou como seria bom ser to bonito.

",   "V
168 ' PEDAGOGIA DO AMOR
O inverno estava to rigoroso que o patmho teve de nadar muitas vezes no lago para se aquecer. Mas o lago comeou a congelar e ele ficou exausto. Um campons que 
passava por ali viu a ave quase morta. Bondoso, o homem salvou o patinho, levando-o para casa e fazendo a alegria das crianas, porm o bichinho, que j vivera experincias 
to ruins, estava morrendo de medo de ser maltratado novamente. Por isso meteu-se na panela do leite, esparramando-o para todos os lados. A mulher do campons gritou 
e gesticulou nervosamente, assustando-o ainda mais. Ento o patinho voou para a batedeira de manteiga, fazendo novo estrago. A mulher, aborrecida, quis bater nele 
com uma vara. As crianas corriam tentando segur-lo. Vendo a porta aberta, o patinho saiu voando e, mais uma vez, acabou sozinho no meio da neve. Foi um inverno 
tristssimo para ele.
A primavera, contudo, estava chegando e o sol comeara a brilhar. O patinho, bem mais crescido, foi para o lago, sacudindo as asas com mais fora do que antes. Voou 
at um belo e perfumado pomar. De repente, viu trs cisnes que avanavam em sua direo, deslizando com suavidade pela superfcie do lago. Eram os mesmos cisnes 
que ele vira voando. A vontade de voar at eles era to grande quanto o temor de ser rejeitado por aquelas aves magnficas, mas o patinho acabou pensando que era 
melhor morrer atacado por eles que continuar a viver aquela vida de humilhaes.

O PATINHO FEIO t O VALOR :
lM>FirOj   169
Asstni, voou at os cisnes. Quando o viram, eles se aproximaram gentilmente, ruflando as asas. O pobre patinho baixou a cabea, olhando para a gua, e esperou. Foi 
ento que, surpreso, viu sua imagem refletida na gua. Ele no era mais aquele patinho feio, cinzento e desajeitado. Era um belo cisne! Ficou emocionado. Os cisnes 
grandes nadavam em sua volta, como se quisessem homenagear o novo membro do grupo. Algumas crianas logo apareceram trazendo pedacinhos de po para eles e, encantadas, 
elogiavam a beleza e a juventude do novo cisne. Embora ele estivesse contente, no havia orgulho em seu bondoso corao. Lembrou-se de tudo o que sofrer e agradeceu 
a Deus ter encontrado tamanha felicidade!
RESPEITO: PASSAPORTE PARA UM MUNDO MELHOR
Quem nunca se comoveu, chorou ou sofreu acompanhando as peripcias do patinho recm-nascido, pequeno e indefeso magistralmente criado por Hans Christian Andersen? 
Quem nunca teve vontade de proteg-lo, de aquec-lo, de aliment-lo, de traz-lo -por fora da magia - para casa? Tudo isso para que a avezinha abandonada  prpria 
sorte no mais sofres-

170     PfOAGOGlA DO MOK
se, no mais chorasse, no mais sentisse frio, angstia, desespero e solido...
A riqueza da histria de Andersen reside na capacidade de nos tocar profundamente, de despertar em ns o sentimento de amor ao prximo, de solidariedade e respeito 
s diferenas... Quando tomamos conhecimento dos infortnios ininterruptos do patinho,  como se acordssemos para a necessidade de cuidar, de amar, de dedicar ateno 
a quem precisa, a quem est desamparado, carente, desprovido de apoio, deslocado, perdido, fora do ninho...
So ensinamentos e aprendizados dessa magnitude que fazem com que a narrativa atravesse os anos inclume, eternizada pelos valores que, implcita ou explicitamente, 
propaga. So qualidades que fazem de O patinho feio um dos contos clssicos mais difundidos e admirados da literatura universal. Uma trama bem amarrada pelas linhas 
da seduo e do encantamento provocados por uma histria repleta de emoo, de beleza e de dor - caractersticas que refletem os dramas e as alegrias existentes 
na vida real.
O conto  rico em elementos e informaes variados que nos levam a questionar, a analisar, a debater e a refletir sobre os significados presentes na saga do pequeno 
protagonista. Um protagonista mpar porque representa um heri s avessas, rejeitado por todos, a comear pela me, pelos irmos e pelos membros da

*
O PATIM IO FEIO E O VA,,)
isruio!   171
comunidade onde nasceu. Todos execram sua aparn cia, sua personalidade e os trejeitos que o tornam diferente, nico, irreconhecvel aos olhos da maioria. O patinho 
 considerado um estranho, um representante do desconhecido, um modelo de excepcionalidade, um cone do sujeito intruso que ameaa a ordem e os costumes estabelecidos.
Munido desses ingredientes, Andersen nos faz transitar pelas veredas complexas dos sentimentos ambivalentes. Esperamos, como espectadores e sobretudo como seres 
humanos que se projetam no universo das histrias e das suas personagens, a superao das adversidades experimentadas pelo patinho. Somos levados a acreditar numa 
virada positiva. Desejamos fortemente que, no fim, ele consiga vencer, mas para ter certeza disso devemos acompanh-lo fielmente pelo universo negativo que pontua 
sua jornada. Um universo cheio de agressividade, de desdm, de preconceito e de intolerncia - manifestaes que jamais encontrariam eco se houvesse, tanto no conto 
de Andersen quanto na vida real, o respeito s diferenas e o entendimento da importncia dessa atitude para o crescimento emocional e intelectual de todos.
O conto mostra as desventuras e os infortnios vividos por um ser constantemente diminudo, com baixa auto-estima, enfraquecido por desconhecer sua verdade interior, 
sua essncia, sua beleza prpria e singular. Ao rejeitar o patinho por sua aparncia diferenciada, as

172    PEDAGOGIA DO AMOR
personagens do conto expem o protagonista ao ridt culo, ao descrdito,  destruio gradativa de sua autoconfiana e de suas perspectivas de futuro.
Na histria, como na vida real, o preconceito de cor, gnero, credo ou classe social prescinde de lgica e de racionalidade para se estabelecer. No h alegao 
plausvel, no h dilogo, no h, por parte das pessoas intolerantes com o diferente, a capacidade de refletir sobre a importncia do outro como pea fundamental 
do jogo social. Um jogo que necessita, acima de tudo, das relaes de troca, de amizade, de interesses compartilhados e de aprendizado proveniente da convivncia 
pacfica entre todos - independentemente da origem e da his-. tria pessoal de cada um.
Desde sempre, a intolerncia, o desrespeito e o sentimento equivocado de superioridade defendidos por indivduos ou grupos acarretam conflitos de toda espcie. So 
embates perpetrados de forma quase hereditria -conceitos arraigados que ocasionam o fanatismo e a irracionalidade. Tudo isso contribui para a criao de massas 
acrticas que desconhecem as vantagens do dilogo, do debate e da discusso civilizada. Massas que, por absoluta ignorncia, acreditam ser a guerra e o ataque entre 
povos e naes o antdoto mais eficaz contra seus possveis "inimigos".
E quem so e como so esses inimigos? Os fatos comprovam que, geralmente, so aqueles que ousam ter opi-

r
O PATINHO FEIO E O VALOR
^FITO
173
nies e modos de vida diferenciados... So aqueles que professam crenas diversas, que tm uma raa que, por algum motivo escuso ao entendimento racional, desagrada 
essas massas imunes  razo. O resultado de procedimentos como esses , quase sempre, o conflito blico, a ausncia total de civilidade que propicia a destruio 
social e a morte de milhes de pessoas ao longo dos tempos.
Seja em casa, seja na escola, temos a responsabilidade e o dever de orientar nossas crianas e jovens para a aceitao do outro, para a compreenso de que condutas 
preconceituosas ou intolerantes s colaboram para a degradao das relaes e para o desentendimento entre as pessoas.  preciso ensin-los a respeitar a diversidade 
como algo inerente a um mundo pluralista, dinmico, multicultural. Um mundo cuja diferena deveria ser encarada como algo absolutamente natural, conseqncia direta 
da variedade geogrfica, poltica, econmica, ambiental e cultural que predomina de forma mais ou menos acentuada nos cinco continentes que compem o globo terrestre.
Se pensarmos bem, todos poderemos vir a sofrer em maior ou menor grau os reveses vivenciados pelo patinho feio. Basta que sejamos expostos a culturas adversas e 
ortodoxas para ter grande probabilidade de ver nossos costumes, nossa aparncia, nossa postura e nosso modo de agir serem alvo de represlias, ironias e sarcasmos 
-dependendo do lugar em que nos encontramos e das

174 ' PEDAGOGIA DO AMOR
\
tradies vigentes nesse ambiente especfico. Como nos sentiramos? Como reagiramos? Teramos a fora, a coragem e a determinao do patinho feio para seguir em 
frente a despeito das irregularidades do caminho? Continuaramos nossa trajetria rumo a novos horizontes? Prosseguiramos em busca de nossa identidade real ou esmoreceramos, 
enfraquecidos pelos obstculos?
Todos esses questionamentos devem ser propostos -por meio de histrias, exemplos e situaes diversas -aos nossos aprendizes. Para criar cidados sem preconceitos, 
 preciso comear a educ-los ainda quando crianas, fazendo com que desenvolvam o respeito ao diferente por meio de mximas morais, contos e narrativas que instiguem 
avaliaes e concluses de que todas as pessoas merecem respeito, amor fraterno e tratamento digno.
Nossas crianas e jovens tm de compreender que a diversidade  extremamente benfica. At porque, se todos tivssemos as mesmas crenas, as mesmas tradies, os 
mesmos modos de ver o mundo e as mesmas opinies sobre tudo, como seria possvel progredir em frentes variadas? Como seria possvel aprender coisas novas? Qual seria 
a razo de existir seno pela maravilhosa aventura de nos saber nicos e, por isso mesmo, fascinantes aos olhos alheios? Qual seria a graa de um mundo culturalmente 
hegemnico? Quais seriam as surpresas reservadas a ns?
Filhos so diferentes, alunos so diferentes, amigos

i
O PATINHO FFIO E O VAlOf
 l ITO
175
so diferentes... Todos obedecem a uni ritmo prprio, ( abe a ns respeitar a maravilhosa trama dos teares diversos. Tramas que produzem indumentrias vivamente 
coloridas e originais, sempre a partir da mistura de cores e tecidos. No dia-a-dia, o ns no inviabiliza o eu nem o tu.  preciso entender a mgica dessas misturas 
e o modo como enriquecem as confeces da vida.
Nesse sentido, educadores, pais e todos os que acreditam na importncia dos valores essenciais para a formao de geraes mais conscientes e crticas devem propagar 
e demonstrar por meio de exemplos e aes que, independentemente das diferenas, todos temos necessidades fsicas e psicolgicas semelhantes. Todos precisamos de 
alimento para o corpo e para o esprito. Todos precisamos de um lar onde nos sintamos protegidos e amados. Um lar que nos guarde do mau tempo. Todos precisamos de 
afeto, de amor, de aceitao e de compreenso para desenvolver um carter que nos torne dignos de exercer a inteligncia e o livre-arbtrio concedidos quando nascemos.
Hans Christian Andersen soube mostrar ao mundo, por meio de suas belas histrias, quanto necessitamos uns dos outros, quanto um mundo sem preconceitos e sem intolerncias 
de qualquer natureza poderia ser melhor, mais bonito, menos sofrido e menos perverso. Mas a mensagem de Andersen ainda vai alm. A histria de O patinho feio nos 
revela que, mesmo que o mundo

1
176  ' PEDAGOGIA DO AMOR
esteja todo contra ns, mesmo que o sofrimento e a dor dem o tom aos acordes de nossas vidas, mesmo que estejamos expostos s ms condies do tempo, mesmo que 
estejamos sozinhos, ainda assim no devemos desistir de acreditar que poderemos ser felizes, ser aceitos, ser parte de algo maior...
Lembremos que, no final da histria, depois de suportar todo tipo de aflio e amargura, o patinho depara com a beleza majestosa dos cisnes. Uma imagem que o seduz 
de forma to arrebatadora que, apesar das numerosas rejeies que sofrer at ento, decide tentar mais uma vez... Decide se aproximar do grupo e, ao faz-lo e ser 
muitssimo bem recepcionado, v a prpria imagem refletida na gua e s ento se d conta da transformao pela qual passou. Percebe que tambm  um cisne belo e 
gracioso. Percebe que o destino pode nos reservar surpresas maravilhosas. Percebe, finalmente, que valeu a pena ter suportado tantos infortnios para saborear aquele 
momento mgico.
Se analisarmos a histria de Andersen de forma mais detida, veremos que o "patinho feio" nos ensina que no h crescimento sem sofrimento. No h felicidade plena 
sem lutas, sem obstculos. No h sensao de pertencimento se no compartilhamos nossa vida, nossas experincias e nossos aprendizados com os que nos so ou no 
semelhantes. No h como nos sentir iguais nem fraternos se alimentamos temores e receios em relao aos outros.

O PATINHO FFIO r O VAI OI'
Por isso, ao ver os cisnes to majestosos, o patinho resolveu arriscar tudo e voar em direo s aves... Quem sabe elas permitiriam sua presena? Quem sabe dividiriam 
seu espao com ele? A mensagem de Andersen  clara: a despeito das experincias dolorosas, temos de continuar acreditando em ns mesmos e tambm nos outros - mesmo 
que, a princpio, eles paream to diferentes. Temos de acordar para o fato de que todos podemos ser como cisnes belssimos, prontos para aproveitar a primavera 
e para viver a doura de uma vida harmoniosa e pacfica.

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A   -
ESTRELA DE JIAS
E O VALOR DA
SOLIDARIEDADE


 belo dar quando solu.         4 mais belo, rnn. dar por haver aperas c;..-. ; < K.'idido.
Kalilil Gibran

ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE O TEMA
Solidariedade. Uma palavra de dimenses cada vez mais grandiosas. Irm caula - de corpo e alma - da fraternidade, da igualdade, da justia e do amor. Um dos smbolos 
mximos da nobreza de carter. Exerccio de bem-fazer. Possibilidade concreta de crescimento. Conceito que propicia a amplitude dos horizontes mais variados. Reunio 
de gestos, atitudes e aes capazes de tornar o mundo melhor.
O vocbulo solidariedade deriva do termo solidrio, que, por sua vez,  composto de slido + rio. O radical solid vem do latim solidus, cujos significados so "slido, 
macio, firme, inteiro, pleno; resistente (sentido fsico e moral)". De acordo com os registros existentes, a palavra j foi grafada como solidaridade, em 1840, 
e como solidariedade, em 1858.

182  ' PFDAIGOGIA no AMOR
Em portugus, o termo  classificado como substantivo feminino e possui numerosas acepes, como "carter, condio ou estado de solidrio; compromisso pelo qual 
as pessoas se obrigam umas s outras e cada uma delas a todas; lao ou ligao mtua entre duas ou muitas coisas ou pessoas, dependentes umas das outras; sentimento 
de simpatia, ternura ou piedade pelos pobres, pelos desprotegidos, pelos que sofrem, pelos injustiados etc; manifestao desse sentimento, com o intuito de confortar, 
consolar, oferecer ajuda etc; cooperao ou assistncia moral que se manifesta ou testemunha a algum, em quaisquer circunstncias (boas ou ms); estado ou condio 
de duas ou mais pessoas que dividem igualmente entre si as responsabilidades de uma ao ou de uma empresa ou negcio, espondendo todas por uma e cada uma por todas; 
responsabilidade, interdependncia; mutualidade de interesses e deveres; identidade de sentimentos, de idias, de doutrinas; estado ou condio grupai que resulta 
da comunho de atitudes e sentimentos, de maneira que o grupo venha a constituir uma unidade slida, capaz de oferecer resistncia s foras externas e, at mesmo, 
de se tornar mais firme ainda em face da oposio procedente de fora".
Em outras palavras, ser solidrio  ter o corao comprometido com razes e emoes superiores s mesquinharias cotidianas, ao materialismo exacerbado, s pequenezas 
mundanas que podem sugar, aos

 Dl IIAS F O VALOR DA MUIV
183
poucos, a energia vital dos seres humanos. Como diz um velho provrbio chins: "Fica sempre um pouco de perfume na mo de quem oferece rosas". O indivduo solidrio 
tem a mente voltada para a> questes verdadeiramente essenciais. Ele est apto a doar, a oferecer ao outro uma dose considervel de si mesmo.  um pacto de irmandade. 
 a compreenso de que  possvel compartilhar sem perdas... A certeza de que o auxlio mtuo  fundamental  concretizao de um aprendizado mais do que importante: 
estamos aqui para dar e para receber felicidade.
A solidariedade perpetua e fortalece o elo que nos remete s nossas razes mais ancestrais e aos nossos instintos mais primevos de preservao da espcie. Ser solidrio 
 contribuir para uma ciranda contnua que preconiza, sobretudo, um vaivm coletivo de boas aes.  o mito do eterno retorno... Um crculo que jamais se comprime. 
Ao contrrio, tende a se expandir freneticamen-te em propores gigantescas. Boas aes propiciam boas reaes e colaboram para o entendimento das coisas realmente 
essenciais. Fazer o bem sem olhar a quem  uma delas. A unio, a capacidade de pensar e de se preocupar com o outro, a grandeza de entoar cnticos coletivos, e no 
individuais, o altrusmo em oposio ao individualismo, o coletivo pairando acima do egocentrismo... Essa  a verdadeira graa e a verdadeira poesia da vida. Poesia 
essa magistralmente descrita por Joo

184 ! PEDAGOGIA no AMOR
Cabral de Melo Neto em seu belssimo poema "Tecendo a manh", do livro Educao pela pedra:
Um galo sozinho no tece uma manh: ele precisar sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito 
que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manh, desde uma teia 
tnue, se v tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em teja, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manh) que plana livre de armao. A manh, 
toldo de um tecido to areo que, tecido, se eleva por si: luz balo.
v-
Que assim seja: que a solidariedade nos ensine a tecer as tramas luminosas e inquebrantveis de novas e promissoras manhs e que possamos, tal qual os galos descritos 
pelo poeta, cruzar os fios de sol que, sem dvida, sustentaro as armaes de horizontes coloridos, cheios de vio e de vigor.

ESTRFIA DE JIAS E O VALOR DA              ' .iUl HAi'!"'   185
PARA RECORDAR A HISTORIA: ISTRLA DE /IAS
Estrela de jias  um conto que expe a solidariedade em toda a sua plenitude. A fonte dessa narrativa  O livro das virtudes, de W.J. Bennett. A histria em si 
 uma adaptao do texto "The Star-Money", que integra o livro Household tales, dos irmos Jacob e Wilhelm Grimm. Influenciados pelas coletneas de Clemens Bretano 
e Achim von Arnim, os irmos deram incio ao trabalho especialssimo de coletar contos e lendas populares, dedicando a vida  reunio e  organizao dessas narrativas 
recolhidas da tradio oral. Seus livros contriburam para que os leitores de toda a Europa e, em seguida, de todo o mundo pudessem conhecer as histrias encantadas 
que retratam temas de apelo universal e acabam por sintetizar os desejos e as expectativas mais diversas que compem o inconsciente coletivo.
Os irmos Jacob e Wilhelm Grimm nasceram em Hanau, Alemanha, em 1785 e 1786 respectivamente. A famlia era numerosa - nove irmos, dos quais trs morreram de forma 
precoce, ainda na infncia - e sofreu um duro golpe com a perda do pai, o advogado Philipp Wilhelm Grimm, falecido aos 44 anos. Jacob e Wilhelm, na poca com 13 
e 14 anos, foram morar com uma tia em Kassel, cidade natal da me dos meninos, Dorothea Grimm. L, concluram estudos equivalentes ao ensino mdio de hoje.

186  PEDAGOGIA no AMOR
Os jovens Grimm cursaram Direito na Universidade de Marburg. Alguns anos depois, com a morte da me, precisaram trabalhar como bibliotecrios para ajudar no sustento 
dos irmos menores. Com o passar dos anos, adquiriram o respeito de todos devido ao trabalho desenvolvido na rea de lingstica, s pesquisas sobre temas medievais 
e aos estudos relativos ao folclore. O reconhecimento veio ainda em forma de convites para que trabalhassem como professores e bibliotecrios em outras universidades 
do pas.
Em 1812, os irmos publicaram o primeiro volume de seus Contos de fadas. J os dois volumes da obra Lendas alems, contendo 585 lendas, vieram a pblico entre 1816 
e 1818. Seguiram-se vrias publicaes bem-suce-didas at o fim de suas vidas. Wilhelm Grimm faleceu em 16 de dezembro de 1859, aos 73 anos, ejacob Grimm, em 20 
de setembro de 1863, aos 78.
Desde essa poca, o trabalho desses dois autores imprescindveis  literatura mundial continua cativando inmeros leitores a cada nova gerao. No raro, suas histrias 
tm protagonistas maravilhosos que transmitem ensinamentos e mensagens capazes de nos fazer acreditar que o ser humano pode e deve ser o semeador e o gestor de tempos 
verdadeiramente mais justos, fraternos e igualitrios. Foi esse o motivo que nos levou a escolher o conto Estrela de jias para encerrar este livro. A grandiosidade 
da personagem principal nos leva

ESTRFIA DF IIAS E O VALOR
IDA DF
187
a refletir no s sobre nossas aes cotidianas mas tambm sobre nossa postura diante da vida de modo geral. E uma narrativa que nos convida, principalmente, a enxergar 
as necessidades do outro e a sentir suas dores mesmo que ns tambm estejamos bastante feridos. No  uma lio fcil de apreender, mas  essencial fazer essa tentativa.
Estrela de jias narra a trajetria de uma pequena rf que vivia com a av em condies praticamente subu-manas. A pobreza era to excessiva que no havia como 
suprir as necessidades mais bsicas, como alimentao e vesturio, A menina, entretanto, nutria a forte esperana de, por meio do trabalho, modificar aquele quadro 
precrio em que viviam.
Certo dia, a garotinha saiu para buscar lenha na floresta com o intuito de vender os gravetos na vila mais prxima e, assim, poder ganhar algum dinheiro. Precavida, 
levou no bolso um pedao de po porque sabia que teria um longo dia pela frente. Levou tambm um xale para proteger-se do frio intenso do inverno. Algum tempo depois, 
ao caminhar pela floresta e j sentindo a fome chegar, a menina deparou com um menino ainda menor do que ela chorando, encolhido, embaixo de uma rvore. Ao se aproximar 
e perguntar o motivo daquelas lgrimas to sentidas, " menina ouviu a seguinte resposta: "Estou com muita fome. No comi nada hoje e no fao idia de como conseguir 
alimento". Compadecida, a garota concluiu que

188  PFDAGOGIA DO AMOR
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I
o pequeno companheiro de infortnios devia estar ainda mais faminto do que ela e, dessa forma, achou por bem dar-lhe o seu nico pedao de po.
Depois disso, ela prosseguiu no percurso e:, um pouco mais adiante, encontrou uma garotinha de aparncia ainda mais miservel que a do menino que a impressionara 
anteriormente. As roupas da menininha estavam em frangalhos e sua pele tinha um aspecto azulado pelo excesso de frio. A pobre garotinha suplicou por ajuda. Era visvel 
que, se no fosse socorrida, certamente tnorreria congelada. Com o corao apertado pelo sofrimento que mais uma vez presenciava, a menina pensou no ser correto 
ter um xale e um vestido que a aqueciam enquanto aquela garotinha possua apenas trapos. Decidiu ento tirar o vestido e d-lo  pequenina que estava  sua frente. 
Feito isso, enrolou-se no xale, tentou ignorar o frio e retomou sua trajetria.
A menina j estava prxima do local onde encontraria lenha quando avistou uma velhinha curvada que, com dificuldade, catava gravetos do cho. Sua figura cansada, 
sua pobreza evidente, seu rosto enrugado -tudo entristecia e enternecia a piedosa menina. Ao v-la mergulhada nessas observaes, a pobre velhinha queixou-se de 
quanto dotam seus ossos e mencionou como seria bom ter um xale que a deixasse mais aquecida.
Sem pestanejar, a menina entregou o xale  velhinha, ficando apenas com um aventalzinho. Algo incrvel
3

ESTRELA DE IIAS E O VAIOR I\\ voni^fmnADF   189
aconteceu... Caminhando por aquela floresta glida e /.' sem comer havia muito tempo, a menina no mais sentia frio nem fome. Algo superior parecia envolv-la... 
Um fenmeno inexplicvel a protegia depois de ter demonstrado tanta solidariedade, tanto amor ao prximo, tamanha generosidade para com os semelhantes. Amparada 
por essa sensao singular, a menina recolheu a lenha e tomou o rumo de casa.
A noite se aproximava. As primeiras estrelas surgiram. Foi ento que um velho apareceu em seu caminho e, sem meias palavras, disse: "Preciso dessa lenha. Estou velho 
e sem foras para procurar gravetos na floresta". A menina, comovida, no conseguiu negar-lhe o pedido. Entregou-lhe a lenha e j se imaginava voltando  floresta 
para pegar mais. Imediatamente, porm, o velho desapareceu e um anjo iluminado surgiu no seu lugar para oferecer  menina tudo o que ela merecia aps ter demonstrado 
tanto altrusmo e uma imensa capacidade de doao. Foi ento que, nesse exato momento, as estrelas do cu pareceram se desmanchar em luz por toda a floresta, que 
passou a brilhar intensamente. Ao olhar de forma mais detida, porm, a menina percebeu que no se tratava de uma chuva de estrelas. Eram pedras preciosas que cobriam 
o cho: diamantes, esmeraldas, rubis... Jias sobre as quais o anjo reluzente revelou: "So suas. Pegue-as".
A menina, encantada com a cena e com o corao

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190 i PEDAGOGIA DO AMOR
transbordando de alegria, usou seu avental para recolher a maior quantidade possvel daquelas pedras que, naqueri le instante, representavam numerosos sonhos lapidados. 
Quando deu por si e buscou novamente a viso do anjo, ele j havia desaparecido. Mais do que depressa, a menina correu para casa a fim de mostrar o tesouro  av. 
Era muita felicidade. A partir daquele dta, av e neta puderam levar a vida com que sempre haviam sonhado e, melhor ainda, permaneceram desfrutando o amor de todas 
as pessoas que cruzaram seu caminho.               i
SOLIDARIEDADE: UMAJIA DE VALOR INESTIMVEL               >'
Ela costuma se fazer presente nos momentos mais difceis e reina absoluta na hora em que tudo o mais parece j estar perdido... Quando no se encontra soluo para 
os problemas, as dores e angstias sem os quais a experincia da existncia no seria completa. Seja nos dramas particulares, seja nos dramas coletivos, ela  mais 
do que necessria:  definitivamente indispensvel. Trata-se da solidariedade - espcie de deusa travestida das mais variadas formas para atender aos mortais em 
sua intensa fragilidade fsica, em seus diversos conflitos espirituais... Sentimento que comumente brota dos coraes mais fra-

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IMDt     191
ternos para prestar socorro aos homens, s mulheres, s crianas, aos animais e a todos os seres que podem, num momento qualquer, precisar do apoio, do amparo e 
do auxlio de outros seres, semelhantes ou no.
Se pensssemos num registro pictnco da solidariedade, talvez pudssemos represent-la como um ser alado - um anjo - cuja misso  permanecer ao lado dos necessitados, 
atento, pronto a intervir a qualquer momento com gestos e aes de extrema amorosidade... Ela  o ombro amigo, o abrao certo, o porto seguro. Assim como o amor 
- um dos seus irmos -, a solidariedade "tem razes que a prpria razo desconhece". No h impedimentos nem fronteiras que a impeam de se manifestar. Ela enxerga 
possibilidades onde muitos s vem barreiras, obstculos e empecilhos que,  primeira vista, aparentam ser intransponveis... Nas guerras sangrentas, nas batalhas 
perdidas, nas catstrofes naturais de toda ordem, nos desastres de propores gigantescas, nas lutas civis mais encarniadas, na edificao dos sonhos e dos ideais 
mais ousados, nos momentos de perda, de desiluso, de desespero... Ela, a solidariedade, nos fortalece e nos faz olhar em direo ao futuro, ao novo dia, aos novos 
amanhs que podero amenizar o sofrimento e as dvidas do hoje, oferecendo a esperana e o conforto imprescindveis ao reinicio, s novas jornadas.
A existncia da solidariedade brinda a todos com a certeza de que a humanidade pode e deve dar passos

192    PEDAGOGIA DO AMOR
gigantes em direo a um futuro sempre melhor do que o presente. Como vimos na histria Estrela de jias, no h limite de idade para que ela se apresente em sua 
plenitude. Crianas, jovens, adultos, idosos, em todas as faixas etrias a solidariedade pode ser dada e recebida em doses generosas. O certo, entretanto,  que 
ela sempre proporciona uma troca de energia, uma troca de afeto, uma troca fraterna em que prevalecem o ganho mtuo e a certeza de que no podemos jamais ter a pretenso 
de prescindir do outro. Dito de outra forma, a vida nos leva a acreditar que existir , antes de tudo, coexistir.
Doar um pouco do que temos no significa restringir essa atitude apenas aos bens materiais.  verdade que, de forma objetiva, a protagonista do conto dos irmos 
Grimm expressou ua solidariedade por meio da doao do po, do vestido, do xale e do feixe de lenha, mas, se analisarmos as entrelinhas, o que temos no conto  
apenas a representao simblica de uma doao muito maior e melhor. Veremos que a personagem presenteia crianas e idosos com a doao de calor humano, de carinho, 
de respeito e de extrema considerao pelas necessidades do prximo.
O po que alimenta o corpo, o agasalho que aplaca o frio, o tempo que dedicamos a ouvir as dores alheias, a cuidar dos que carecem de ateno... O olhar verdadeiramente 
terno que depositamos naqueles que - tambm com os olhos - suplicam por auxlio... A mo que

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se estende, que afaga, o brao que envoive, o trabalho voluntrio que muitos tm aprendido a exercer... Trabalho que orienta, que oferece um norte, uma possibilidade, 
um futuro.
Solidariedade  uma palavra transformadora. Uma palavra impregnada de fora, de singeleza, de dedicao, de esprito de entrega - caractersticas e sentimentos imprescindveis 
 vida em sociedade e, por isso mesmo, perfeitas para ilustrar a importncia de propagar esse conceito e os benefcios de seu exerccio aos quatro ventos.
Na famlia, na escola, no trabalho, nos momentos e nas situaes mais variados da vida... Sempre h uma forma de agir a servio de quem est em nossa volta ou mesmo 
de quem est longe e atravessa uma situao difcil. Nesse sentido, a participao e o empenho de todos na doao de mais tempo, mais amor, mais afeto e mais recursos 
que proporcionem uma vida mais digna aos seus semelhantes so fundamentais. Essa , talvez, a maior resposta s grandes questes universais: "Por que e para qu?"
Quando doamos, estamos exteriorizando um gesto capaz de mudar para sempre, e para melhor, uma histria de vida - tanto a histria da nossa vida quanto a da vida 
do outro. E o mais impressionante: s vezes, a doao permite mudar, ao mesmo tempo, milhares, milhes de vidas. Foi assim quando Sherazade se entregou voluntariamente 
ao sulto Shariman... Foi assim quando

194
 ociA no AMOR
Damon se ofereceu para ficar preso no lugar de Ptias... Foi assim quando Dom Quixote decidiu doar sua vida  aventura da cavalaria para proteger os fracos e os 
oprimidos... Foi assim quando Davi decidiu doar ,->ua coragem empregando-a em prol de uma causa nobre: a defesa da honra de seu povo... Foi assim quando a famlia 
de Fabiano decidiu iniciar sua jornada esperanosa rumo a uma vida menos seca... Foi assim quando Hrcules decidiu doar toda a sua fora e toda a sua inteligncia 
em defesa do trabalho justo, digno e honrado que enobrece a todos... Foi assim quando Cinderela doou toda a sua humildade na expectativa de vencer e de realizar 
seus sonhos sem esnobismo, orgulho, dio nem qualquer desejo de vingana por tudo o que sofrer... Foi assim quando o rei Salpmo abdicou de todos os ganhos materiais 
que poderia obter em seu pedido a Deus em troca de um bem muito mais nobre, a sabedoria... Foi assim quando o patinho feio doou, para todos ns que lemos a sua histria, 
ensinamentos preciosos sobre o respeito e sobre a aceitao do outro... Foi assim quando a menina de Estrela de jias doou tudo o que tinha em troca da sensao 
de poder fazer o outro feliz... A sensao de ter o corao limpo, a sensao do dever cumprido. A sensao de antecipar o lema proveniente dos versos de um famoso 
poeta, Fernando Pes sca: "Tudo vale a pena se a alma no  pequena". Nossas crianas e jovens tm, cada vez mais - graas

ESTRFIA DE I1AS F O VAIOR DA SC" IfWP.iEDADE     195
ao verdadeiro exrcito de agentes solidrios que hoje existe no Brasil -, as condies de apreender o papel social que todos podemos desenvolver na construo de 
uma famlia, de um bairro, de uma cidade, de um Estado ou de um mundo mais fraternal. H uma campanha lindssima que vem tomando corpo nas escolas, entidades, associaes, 
organizaes pblicas e privadas em torno da criao de uma sociedade mais participativa, menos individualista e mais altrusta. Esse , sem dvida, um belssimo 
exerccio de cidadania na medida em que proporciona a oportunidade da descoberta... A descoberta de que estamos aqui para aprender a compartilhar e para construir 
um mundo em que a igualdade, a fraternidade e a justia sejam, mais do que belas palavras, uma esplendorosa realidade.


POSTSCRIPTUM:
A PERA, O MAESTRO
E OS MSICOS

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Um dos maiores mestres das letras nacionais - se no o maior -, o escritor fluminense Joaquim Maria Machado de Assis, em seu clssico Dom Casmurro, mais especificamente 
no captulo 9, faz uso de sua pena inigualvel para construir uma associao inusitada e - por ser ele o seu criador - extremamente bem-sucedida em termos de estilo, 
de ironia e de poesia. O "bruxo do Cosme Velho" - como ficou conhecido - faz uma analogia entre a criao da vida no planeta Terra, com seus personagens complexos 
e multifacetados, e uma pera, com todos os seus msicos, cantores, bailarinos e,  claro, seu maestro.
Em determinado trecho do captulo, o autor - por meio de uma das personagens que do vida ao romance - dispara: "Deus  o poeta. A msica  de Satans, jo-

200 i PFD\GOGIA no AMOR
vem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatrio do cu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, no tolerava a precedncia que eles tinham na distribuio 
dos prmios. Pode ser tambm que a msica em demasia doce e mstica daqueles outros condiscpulos fosse aborrecvel ao seu gnio essencialmente trgico. Tramou uma 
rebelio que foi descoberta a tempo e ele foi expulso do conservatrio"5.
A seqncia do captulo  um primor de originalidade, de graa e de inteligncia. No texto, Machado de Assis usa a explicao religiosa do surgimento da vida na 
Terra como pano de fundo de uma anlise dos motivos pelos quais alguns trechos dessa verdadeira pera que configura a nossa existncia so to belos e bons, enquanto 
outros so to dspares, desafinados e,contrastantes.
Em sua genialidade singular, o criador de Bento, Capitu, Brs Cubas, Quincas Borba e tantos outros personagens inesquecveis nos incita  reflexo sobre os altos 
e baixos da vida, sobre as virtudes e os defeitos inerentes  condio humana, sobre os erros e os acertos decorrentes dessas variaes, sobre os dramas e as comdias 
que se resumem, enfim, a essa mistura de msica e de poesia. No captulo em questo, os descompassos dessa pera composta pelo anjo cado -que queria provar sua 
superioridade aos demais anjos e, por isso, utilizou todo o seu talento na composio -so atribudos  recusa divina em escutar os ensaios pro-

202   PEDAGOGIA no AMOR
uma das histrias que mostram de maneira magistral a dualidade da vida em toda a sua essncia e o modo como podemos interpret-la das mais variadas formas. Assim 
como podemos nos dar por vencidos e tapar os ouvidos nos momentos de desafinao, podemos tambm assumir a regncia da orquestra e conduzir um novo e memorvel concerto.
As grandes histrias de todos os tempos contm ingredientes imprescindveis para que essa regncia ocorra da melhor forma possvel. Virtudes, valores e sentimentos 
como o amor, a amizade, o idealismo, a coragem, a esperana, o trabalho, a humildade, a sabedoria, o respeito e a solidariedade so alguns dos instrumentos fundamentais 
ao bom andamento dessa orquestra magnfica que , sem sombra de dvida, o cerne da pera da vida.
Bartonos, sopranos, contraltos, tenores... Somos todos componentes de um majestoso espetculo. Mestres e aprendizes da arte de extrair os melhores sons e os melhores 
acordes. Esperamos, de corao, que todas as histrias sobre as quais nos debruamos, fascinados, neste livro possam servir como partituras repletas de notas que 
nos possibilitem alcanar um tom, digamos, dual. Um tom que nos embale tanto nos momentos felizes quanto nos momentos difceis. Esse  um aprendizado que leva tempo, 
mas as histrias aqui reunidas comprovam: todo esforo e todo sacrifcio so, com certeza, compensadores e, no final, acabam sempre originando muitos aplausos.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS DAS HISTRIAS
As mil e uma noites
GALLAND, Antoine. As mil e uma noites. Apresentao de Malba Tahan. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.
Damon e Pttias
BENNETT, William J. O livro das virtudes. Vol. 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, pp. 207-208.
Dom Quixote
ANGELI, Jos. Dom Quixote: o cavaleiro da triste figura (adaptao). So Paulo: Scipione, 1985.
Davi e Golias
BBLIA SAGRADA. Traduo da CNBB. So Paulo: Vrias editoras, 2002.

t.
Vidas secas
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 51. ed. Rio de Janeiro: Record, 1983.
A escolha de Hrcules
BENNETT, William J. O litro das virtudes. Vol. 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, pp. 269-270.
Cinderela
BETTELHEIM, Bruno. "Borralheira". In: A psicanlise dos contos de fadas. 16 ed. So Paulo: Paz e Terra, 2002, pp. 277-316.
O rei Salomo
BBLIA SAGRADA. Traduo da CNBB. So Paulo: Vrias editoras, 2002.
O patinho feio
ANDERSEN, Hans Christian. Histrias maravilhosas de Ander-sen. So Paulo: Companhia das Letrinhas, 2001, pp. 106-119.
Estrela de jias
BENNETT, William J. O livro das virtudes. Vol. 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, pp. 335-336.

NOTAS
1    Todas as definies de vocbulos, neste e em outros captulos, foram extradas do Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa.
2    ARISTTELES. OS pensadores. So Paulo: Nova Cultural, 1996, pp. 257-258.
3    In: ABBAGNANO, Nicola. Dicionrio de filosofia. 3. ed. So Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 966.
4    Idem, ibidem, p. 854.
5    MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Dom Casmurro. 39. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 28.

BIBLIOGRAFIA
ABBAGNANO, Nicola. Dicionrio de filosofia. 3. ed. So
Paulo: Martins Fontes, 1999. AGOSTINHO. Confisses. Col. Os Pensadores. So Paulo:
Abril Cultural, 1973. ALVES, Rubem. Entre a cincia e a sapincia - O dilema
da educao. So Paulo: Edies Loyola, 1999. ARISTTELES. Tpicos/Dos'argumentos sofsticos/Meta-
fsica/tica a Nicmaco/Potica. So Paulo: Abril
Cultural, 1973. BETTELHEIM, Bruno. A psicanlise nos contos de fadas.
16. ed. So Paulo: Paz e Terra, 2002. BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia;
Histrias de deuses e heris. 12. ed. Rio de Janeiro:
Ediouro, 2000. CHALITA, Gabriel. Vivendo a filosofia. So Paulo: Atual,
2001.
HOUAISS, Antnio. Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LAJOLO, Mansa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 3. ed. So Paulo: tica, 1997.
MACENA, Elon. Os contos tradicionais como recurso psicopedaggico. Dissertao de mestrado. So Paulo: Universidade de Guarulhos, 1997.
RODARI, Gianni. Gramtica da fantasia. 9. ed. So Paulo: Summus Editorial, 1982.
SCHWAB, Gustav. As mais belas histrias da antigidade clssica; Os mitos da Grcia e de Roma. 5. ed. So Paulo: Paz e Terra, 1997.
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TARDELI, Denise D'Aurea. A inveno da sala de aula -O melhor do Bolando a Aula. Petrpolis: Vozes, 2002.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor - Estruturas mticas para contadores de histrias e roteiristas. Rio de Janeiro: Ampersand Editora, 1992.
